Professora contradiz Vitória Régia e diz que livro de Conceição Evaristo foi proibido pela direção

Em nota, a escola disse que o pedido foi partido dos pais. A professora nega esta versão

Por Tailane Muniz

Ana*, a professora que revelou ao Jornal da Metropole que foi afastada de uma turma de nível médio após apresentar aos alunos a coletânea de contos ‘Olhos D’água’, da escritora negra mineira Conceição Evaristo, desmente o que diz o Colégio Vitória Régia. Nesta sexta-feira (19), a instituição enviou à reportagem uma nota em que nega ter proibido a obra após insatisfação dos pais dos adolescentes. Em novo contato, ela reafirma que a proibição partiu da fundadora e diretora da instituição, em uma reunião gravada.

O comunicado da instituição diz que a professora, “levou o assunto em questão ao seu perfil particular no Instagram, no qual levantou a acusação de racismo e de estar sendo silenciada pela instituição, o que jamais ocorreu”. O trecho da nota chegou em Ana por meio do grupo dos professores, onde o posicionamento da escola também foi disponibilizado. O que causou estranheza, nas palavras da professora.

“Fiquei surpresa, e muito triste, com o conteúdo. Em 29 de setembro, durante a reunião, foi dito que os pais pediram o meu afastamento. A princípio, disseram que era uma família, depois duas, em seguida seis e, por fim, oito famílias”, lembra. De forma direta, acrescenta Ana, os membros do departamento de humanas ouviram que “todos os trabalhos com o livro estavam concluídos e que, a partir dali, a orientação era a de que outras atividades fossem feitas com os estudantes incomodados. E que o livro não mais fosse citado”.

Em nota, o Vitória Régia reconhece que a obra "aborda temas sociais pertinentes, como violência, racismo, abuso e pobreza" e é indicada para realização de vestibulares, mas, ainda assim, justifica que "alguns pais não se sentiram confortáveis por acharem a linguagem imprópria para a faixa etária".

Ana, que dá aulas a cerca de 200 alunos da unidade há 17 anos, afirma que decidiu usar o próprio perfil nas redes sociais para abordar os contos de Conceição, a quem demonstra admiração e respeito pela trajetória. “Eu ouvi da escola que eu não deveria realizar a live, porque aquilo poderia se voltar contra mim se a repercussão fosse negativa. Chegaram a dizer que eu poderia perder todos os meus empregos”.

A professora foi encorajada pela mãe que, ao ouvir o comentário, afirmou que Ana não poderia temer “por ensinar aos alunos temas essenciais à formação do indivíduo”, como os abismos sociais presentes na construção da sociedade brasileira - expostos nos contos de Conceição.

Ela não perdeu o lugar nas outras três escolas em que trabalha e, pelo contrário, recebeu o apoio de uma série de professores e estudantes por meio das redes sociais. No Twitter, alguns comentaram o caso e se disponibilizaram criar uma rede de acolhimento.

Para Ana, que em algum momento acreditou que o Vitória Régia pensou em lhe proteger da fúria dos pais, restou, em suas próprias palavras, o entendimento de que “eles agiram assim porque pensam como os pais”. Caso contrário não teriam acatado a exigência do afastamento nunca antes lhe imposto, em 20 anos de salas de aula.

*Foi usado um nome fictício para manter a identidade da professora em sigilo

PARCEIROS