A Sua Excelência, Senhor Doutor Luiz Gama

Por Dennis de Oliveira e Anderson Moraes

O Conselho Universitário da USP (Universidade de S. Paulo) aprovou hoje, dia 29 de junho, a concessão do título de doctor honoris-causa póstumo ao lider abolicionista Luiz Gama que se transforma, assim, na segunda personalidade negra (e primeira brasileira) a receber esta comenda da universidade. O primeiro foi o líder sul-africano Nelson Mandela. A aprovação do título foi por unanimidade.

Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador em 1830, filho de mãe africana livre e pai português. Aos 10 anos, seu pai o vendeu para pagar dívidas de jogo e com isso Gama foi para Lorena, cidade no interior de São Paulo. Aí aprendeu a ler e escrever e conseguiu judicialmente sua liberdade aos 18 anos. Impedido de estudar na Faculdade de Direito do Largo S. Francisco por racismo, tornou-se defensor autodidata (chamado, na época, de rábula) e militou em defesa da abolição. Segundo historiadores, Luiz Gama conseguiu libertar quase 500 negros e negras escravizados.

A sua atuação como abolicionista não se limitava ao campo juridico. Foi um dos fundadores do periodico abolicionista Diabo Coxo (junto com Angelo Agostini que fazia as ilustrações), também participou do periódico Cabrião e escreveu para vários outros jornais. No campo da literatura, é autor de Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, coletânea de poesias com forte tom critica a sociedade escravista do século XIX.

A proposta de concessão do título foi feita pela Escola de Comunicações e Artes da USP ressaltando o papel de Luiz Gama como jornalista. Porém, a concessão do doctor honoris causa é um reconhecimento do papel de Luiz Gama como intelectual público, pois ele articulava suas ações no campo juridico, jornalístico e literário em defesa da abolição da escravidão.

Luiz Gama teve o seu reconhecimento tardio. A abolição da escravatura veio seis anos depois da sua morte e este título de doctor honoris causa, 139 anos após. O Brasil tem uma dívida com esta grande personalidade e, por isto, espera-se que a concessão deste título abra uma janela para que sua obra seja divulgada e estudada por todos que se interessem em conhecer a história verdadeira do país.

Gama foi abolicionista e “ousou” ser jornalista e criando o primeiro jornal ilustrado, o “Diabo Coxo”, em 1864, ao lado do caricaturista italiano Ângelo Agostini (este ficou conhecido por ser percursor dos quadrinhos no Brasil), além de longa trajetória em outros veículos da época.

Assim, Luiz Gama ajudou a pavimentar a história da comunicação e da imprensa negra. Se hoje existe o Jornal Empoderado, é porque Gama teve a “audácia” de se insurgir e construir uma história não só no direito como na comunicação.

Seu legado ficou. Sua história virou livro, tese de faculdade e filme. Foi homenageado pela “Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira/SP)”, no “Sindicato dos Jornalistas de São Paulo”, com uma placa pelos seus feitos como jornalista. E hoje recebeu a honraria como o título de doctor honoris-causa, pela Universidade de São Paulo.

Viva o Doutor Luiz Gama!

 

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