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CULTURA - Já são 40 anos sem Vinicius de Moraes!


No dia 9 de julho de 1980, mais ou menos às 4 da manhã, em sua casa na Gávea, morria, aos 66 anos, Vinicius de Moraes, vítima de um edema pulmonar. Poeta, diplomata, crítico de cinema, cronista, letrista, apaixonado pelas mulheres e que, ao lado de Tom Jobim, inventou a Garota de Ipanema, considerada uma das 50 canções mais importantes de todos os tempos. Os muitos Vinicius… pois se fosse um só, seria, segundo Sérgio Porto, Vinício de Moral.

Naquela madrugada, ele deixava este mundo para entrar no céu, como garantiu o amigo Carlos Drummond de Andrade em memorável crônica publicada no Jornal do Brasil de 11 de julho. Na crônica, São Pedro atazana tanto a chefia – Deus – que Ele acaba se convencendo que o poetinha tinha mesmo que entrar no Paraíso.

No dia 19 de outubro de 1913, também de madrugada, mais ou menos no mesmo horário, na rua Lopes Quintas, 114, no Jardim Botânico, nascia, em noite de muitos raios e trovões, o menino Vinicius de Moraes, filho do seresteiro Clodoaldo Pereira Silva Moraes e da pianista Lydia Cruz de Moraes.

Descobrir novas histórias e tentar desvendar as lendas cultivadas entre as duas datas – o nascimento e a morte de Vinicius de Moraes – foi o desafio que me impus, em 1986, ao aceitar escrever o roteiro do show da entrega do primeiro Prêmio Sharp de Música, que foi dedicado a ele.
Além de conhecer e curtir toda a obra dele, oito versos do poema “Auto-retrato” se tornaram uma espécie de bússola a indicar o meu norte:

“As coisas que mais detesto: viagens
Gente fiteira, fascistas,
Racistas, homem avarento
Ou grosseiro com mulher.
As coisas de que mais gosto:
Mulher, mulher e mulher
(Com prioridade da minha)
Meus filhos e meus amigos”.

Manolo, dono do Antonio’s, é entrevistado pelo jornalista Ricardo Carvalho e autoriza a utilização do bar para entrevistas.

Agora, imagine a euforia de um jornalista paulista, fã incondicional do seu pesquisado, andar de um lado para outro na Zona Sul da linda Rio de Janeiro. Olhos e ouvidos atentos, o repórter ficava com seu puçá erguido, como um caçador de borboletas, tentando capturar inéditas revelações sobre a vida encharcada de amor e paixão que Vinicius de Moraes levou.

Conversei com amigos, amigas, intérpretes, suas duas irmãs, Letícia e Lygia, as filhas Georgiana e Luciana e duas das nove mulheres com quem ele se casou, Lila Bôscoli, a segunda, e Gilda Matoso, a última.

Como goleiro, repórter tem que ter sorte e eu tive, logo de cara. Instalado no Antonio’s, bar festivamente frequentado por artistas e intelectuais, devidamente autorizado pelo Manolo, o dono, uma das primeiras entrevistas foi com Lila Bôscoli por quem o Vina foi perdidamente apaixonado e ela por ele.

Com Lila, Vinicius enfrentava a primeira aventura fora do primeiro e estável casamento com Beatriz Azevedo de Mello (Tati), de família paulista, intelectual, progressista, que fez a cabeça política do marido. Tanto que ele tentou ingressar no Partido Comunista Brasileiro. Em 1945, conseguiu se encontrar com o todo poderoso líder do PCB Luis Carlos Prestes. Ao final da reunião, Prestes sentenciou que ele, Vinicius, prestaria um melhor serviço à causa como poeta, diplomata, compositor e não necessariamente como militante. Tinha razão o velho comunista e o poema “Operário em Construção” é uma das provas.

Lila Bôscoli, segunda mulher do Vinicius, ao lado de Rubem Braga, na fazendinha.

Com Lila Bôscoli, no Antonio’s, a conversa foi na direção da paixão, ou do viver apaixonado, a especialidade do Vina. Diz a lenda que os dois se conheceram a partir de um encontro marcado por Rubem Braga e sua então namorada Danuza Leão, que fez questão de ir junto ao encontro dos dois amigos, obviamente que em um bar.

Aproveitou e levou a tiracolo a amiga Lila, do alto dos seus exuberantes 19 anos. Vinicius voltava do seu posto diplomático em Los Angeles, onde, inclusive, havia estudado cinema com Orson Wells. Estava casado há 12 anos e já tinha 38 anos de estrada. Quando disse as palavras mágicas, “Vinicius esta é a Lila… Lila este é o Vinicius”, o profeta Rubem Braga olhou bem nos olhos dos dois e sacramentou: “e seja o que Deus quiser”. Deus quis.

Separou-se da Tati, foi namorando a Lila e logo marcou a data para pedir a mão dela em casamento. No dia determinado, a primeira surpresa foi quando Lila abriu a porta do apartamento, enrolada em uma toalha branca, os ombros de fora, em lindo e sensual contraste com sua pele morena curtida em Ipanema. Na cabeça, para ajudar a enxugar o cabelo, outra toalha enrolada de um jeito que parecia o turbante de marajá. Ele ficou surpreso, embora não decepcionado, porque havia chegado na hora combinada, todo cheiroso, bem arrumado, talvez até um pouco nervoso para um momento tão solene e encontrou a noiva sorridente, leve, livre e solta, saindo do banho…

A mãe da Lila estava muito doente e de cama o que, no entanto, não impediu o pedido. Aí, a segunda surpresa do dia. Ao comunicar à senhora, “comme il faut”, as suas ótimas intenções, recebeu um rápido e sonoro não como resposta. O coitado ficou sem saber direito o que fazer, a perplexidade estampada em seu semblante. Logo ele, um romântico inveterado.

Só que não adiantou muito a resistência da mãe de uma linda carioca de 20 anos pedida em casamento por um homem feito, desquitado e prestes a completar 39 anos. Mesmo sem a benção materna e felizes da vida, foram os dois morar em um apartamentinho na rua Francisco Otaviano, em Copacabana.

Vinicius era meio confuso ao lidar com dinheiro e, muitas vezes, não dava para pagar a conta da luz, coisa que, para os apaixonados, é um mero detalhe. Com o coração pulsando de desejo, era só acender o gás do forno do fogão, deixar a portinha aberta e pronto: já tinham uma romântica e tênue iluminação para se divertirem madrugada adentro.

Deu sede!! Com a geladeira desligada, como combater os vários calores com uma aguinha gelada? Muito simples. Bota na boca uma balinha de hortelã, espera um minutinho… aí, é só tomar o seu copinho d’água que ela fica, milagrosamente, geladinha. Falar assim, no diminutivo, era uma outra delicadeza de Vinicius com seus interlocutores.

Ricardo Carvalho, Otto Lara Resende e Rubem Braga. Mais do que uma entrevista, foi uma alegre celebração das muitas lembranças do único poeta brasileiro que, segundo Carlos Drummond de Andrade,”ousou viver como um poeta… sob o signo da paixão… da poesia em estado natural…”

Do Antonio’s e já de noite, Lila me levou e a sua filha Georgiana, fiel escudeira em meus 40 dias de pesquisa, para uma fazendinha em plena Ipanema. Com suas árvores frutíferas, Rubem Braga nos recebeu em sua cobertura para falar sobre o Vina. Quando chegamos, já estava sentadinho no terraço outro querido amigo: Otto Lara Resende.

No primeiro gesto, a primeira homenagem: Rubem abriu um litro de uísque guardado para ocasiões especiais. Era, de longe, a bebidinha preferida pelo amigo. Na verdade, a grafia correta é whisky e com a nítida preferência de Vinicius pelo White Horse, que ele chamava de cachorro, o melhor amigo do homem. E dá-lhe histórias, causos, lembranças e tudo, absolutamente tudo, narrado com a leveza e a graça que faz parte do jeito bem humorado típico da cultura carioca.

Eles lembraram, por exemplo, no que deu o desafio que o renomado “clube dos cafajestes”, um grupo de amigos que seria hoje condenado ao inferno pelo comportamento politicamente incorreto, fez ao já famoso sedutor.
A missão consistia em levar para os lençóis de algodão egípcio a princesa Ira von Fürstenberg, lindíssima, desejadíssima, que adorava o Brasil e estava na cidade. Muitos cafajestes já tinham dado o bote e… nada. Tornava-se, então, urgente chamar o Vina para salvar a honra nacional. Corria mundo a fama que mulher não dizia não a ele.

Foi marcado um jantar no restaurante mais chic do Rio. E lá estava Vinicius, poliglota, derramando o seu charme para cima da moça, até que ela não resistiu aos encantos e, finalmente, topou sair com ele para transar (se eu fosse do “clube dos cafajestes” diria, no mínimo, trepar com o nosso poeta).
Só que, no cafezinho, ela cometeu um erro fatal. Sussurrou discretamente ao ouvido atento do poeta que ele não poderia contar a ninguém a noite de amor que iriam desfrutar.

Educadamente, Vinicius teve uma repentina dor de cabeça, não se sentiu bem e comunicou, com aquela carinha de cachorro que cai do caminhão de mudança, que não poderia sair com ela naquela noite. Mas, como assim, estranhou a princesa, já, com certeza, sonhando com os dotes do poeta na arte do amor carnal. Vinicius se manteve firme. Levou a frustrada princesa para casa, se despediu com salamaleques, foi ao encontro da turma e desabafou que não podia atender aquele tipo de pedido, mesmo vindo de uma princesa. Afinal, do que adiantaria comer a mulher mais desejada do Rio de Janeiro e depois não poder contar aos amigos?!! É verdade, não fazia o menor sentido, principalmente em se tratando de cláusula pétrea do estatuto do “Clube dos cafajestes”. Tem sempre que contar…

Otto Lara também riu muito ao lembrar do apelido que deu ao amigo poeta que vivia, em determinado momento do início da carreira, uma fase mística e exageradamente lírica: “inquilino do sublime”.

Os três mantiveram a toada de matar as saudades do mais carioca dos cariocas através destas muitas lembranças. Sorte do jornalista. Como esquecer que, em 1956, com a estreia do seu musical “Orfeu da Conceição”, Vinícius levava, pela primeira vez, atores e atrizes negrxs, lideradxs por Haroldo Costa e Dirce Paiva, para o palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. “Orfeu” foi também o primeiro encontro da parceria Vinícius de Moraes e Tom Jobim.
Por falar em primeiras coisas, vamos lá:
– As primeiras pernas que Vinicius alisou foram de uma amiga de sua mãe. Segundo a irmã Letícia, ele tinha cinco anos de idade e foi pego em flagrante, debaixo da mesa do almoço.
– Primeira poesia. Aos oito anos e entregou à menina Cassemirinha, do Colégio Floriano Peixoto.
– P_erdeu a virgindade aos 13 anos, na zona de Belo Horizonte, levado pelo divertido tio Niboca.
– Primeiro dinheirinho ganho como compositor. Com 15 anos, ao fazer a letra do fox-trot “Loira ou Morena”, em parceria com os irmãos Tapajós.

É lógico que a Lila, ali na fazendinha, também se divertia com as muitas histórias do incorrigível sedutor e poeta da paixão, com quem ela ficou casada sete anos. Aproveitou a deixa para também contar as suas historinhas.

A filha Georgiana ainda bebê, Vinicius estava impaciente, andando de um lado para o outro no apartamentinho e nem cometer versos ele estava conseguindo. Lila, sobrinha neta da compositora Chiquinha Gonzaga, foi à raiz do problema: “porque você não compõe um samba… isto, a letra e música?” Para letras ele nadava de braçada, compor a música ele nunca tinha feito, mas não fugiu da raia. Respondeu apenas: “Olha, garota, que eu faço…” Pegou o violão, foi para um cantinho e de lá saiu com o seu primeiro samba com letra e música: “Quando Passas Por Mim”, gravado pela grande cantora do momento, Araci de Almeida.

A emoção da Lila foi encorpando à medida que as lembranças eram amorosamente depositadas na mesinha, na mesma proporção que o litro de uísque ia sendo esvaziado. Ela contou que, muitas vezes, recebeu telefonemas do Vina, pedindo que ela tirasse o longo cabelo negro de cima da sua mesa de trabalho, pois não estava conseguindo se concentrar na sua rotina profissional no Itamarati.

Ainda no Antonio’s, eu mesmo li para ela, por mero capricho, trechinhos do poema “Amor dos Homens” que é, na minha opinião, a mais linda declaração de amor que um homem pode fazer a uma mulher, na língua portuguesa. Concentrada, olhos fixos na minha leitura, Lila, ao final, não hesitou um segundo em garantir que o poema havia sido escrito em celebração ao amor dos dois. Foi a minha vez de ficar um pouco surpreso… Ela percebeu o meu desconforto e me desafiou a checar a data do poema. Estava lá, 1957. De fato, eles ainda estavam juntos.

De qualquer maneira foi um prazer conhecer a musa inspiradora do “Amor dos Homens” que, ao longo da minha vida, tenho feito leituras emocionadas de trechos a diferentes namoradas que passam pela minha vida. O poema se tornou uma infalível arma de sedução. Acho que nenhuma resistiu. Não tinha mesmo como resistir a versos assim:

“…E tu te ris.
Teu riso desagrega os átomos
Só os genes dos meus tataranetos poderão dar prova cabal da tua imensa radioatividade
Depois, sorrindo, silencias. Odeio o teu silêncio
Que não me pertence, que não é
De ninguém. Teu silêncio
Povoado de memórias…”

Assim, na celebração, aqui na ABI, dos 40 anos da sua entrada no Paraíso, só tenho, prezado Vinicius de Moraes, a agradecer por tudo que você deixou para a posterioridade, pois como disse Deus, um tanto emocionado, ao final da crônica de Carlos Drummond de Andrade, o mundo seria muito melhor “se todos fossem iguais a você”.

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