Um silêncio de morte

Na despedida de Aldir Blanc, carta aberta com versos do gigante que sonhou, riu, chorou e cantou o Brasil O Brasil de Aldir resistirá sempre ao Brazil de Jair.


Caro Aldir,

Quem sabe de si, nesses bares escuros? Quem sabe dos outros… das grades, dos muros.

Batidas na porta da frente, é o tempo.
Eu bebo um pouquinho, pra ter argumento.

Mas fico sem jeito.
Calado, ele ri, ele zomba do quanto eu chorei.
Porque sabe passar, e eu não sei.

Sem pressa, foi cada um pro seu lado, pensando numa mulher ou num time. Olhei o corpo no chão, e fechei minha janela de frente pro crime.

Na morte, a gente esquece.
Mas, no amor a gente fica em paz.

Fascínio tenho eu por falsas louras (ai, a negra lingerie).
Me disseram que o começo é quase sempre inesquecível; no entanto, meu amor, que coisa incrível: esqueci nosso começo inesquecível.

Que sufoco…
Louco… fazia irreverências mil…
Meu Brasil!

Acreditar, na existência dourada do sol, mesmo que em plena boca nos bata o açoite contínuo da noite.

Rubras cascatas jorravam das costas dos negros, entre cantos e chibatas, inundando o coração do pessoal do porão.

Salve, o almirante negro!

Glória, a todas as lutas inglórias!

Mocinhas francesas, jovens polacas, um batalhão de mulatas.
São pais-de-santo, paus-de-araras, são passistas.
São flagelados, são pingentes, balconistas.
Palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados.

Borel, juramento, urubu, catacumba.
Nas roda de samba, no eró da macumba.

Matriz, Querosene, Salgueiro, Turano,
Mangueira, São Carlos, menino mandando.

Ídolo de poeira, marafo e farelo.
Um deus de bermuda e pé-de-chinelo: mudou de estação, só pra me atazanar.

Saiu só com a roupa do corpo num toró danado, foi pros cafundós do judas…
Tô com dor de cotovelo, e com a cabeça inchada.

Também sofri, mas não se vê no rosto.

O apreço não tem preço.

Muito obrigado, amigo, por você ter (nos) ouvido.

Só dói quando eu rio.

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