O 13 de maio e o racismo nosso de cada dia


Pessoas negras sempre foram colocadas pela estrutura racista de sociedade em condições inferiorizadas de vida

Hoje recordamos os 132 anos da Lei Áurea que pôs fim à prática da escravidão no Brasil. A data é sempre uma oportunidade para recordarmos que o fim da escravidão não significou o fim do racismo, da negação das pessoas negras como iguais, e da exploração dos trabalhadores em nosso país. É ainda oportunidade significativa para cristãos e cristãs reafirmarem o racismo como pecado, uma ofensa ao Deus da Vida.

O racismo é uma das formas mais cruéis de intolerância estabelecidas na história da humanidade. Tem por base a negação (não aceitação) das diferenças entre humanos e da possibilidade de coexistência entre diferentes. Esta negação se soma a práticas sociais e políticas que estabelecem uma distribuição desigual de poder entre grupos sociais e determinam a supremacia de uma “raça” (a branca) sobre outra (a negra).

Dá-se, historicamente, de forma institucionalizada, por meio de políticas e legislação, por meio da subordinação e da exploração de povos inteiros, e também como uma estrutura integrada às formas de vida culturalmente estabelecidas em sociedades diversas. Por meio destas expressões o racismo opera explicita ou sutilmente, no dia a dia. 

O Brasil foi o maior receptor de africanos escravizados (46% do mercado de escravos de todo o mundo) e o último país das Américas a extinguir a escravidão, já independente de Portugal e a um ano antes de se transformar numa República.

Mesmo reconhecendo a cidadania a indígenas e à grande população negra e mestiça, fato é que a escravidão, tanto no seu sentido econômico de exploração do trabalho alheio, como no seu sentido moral e político de produção de distinções sociais, se manteve, na prática, presente desde então.

Já havia uma cultura da desigualdade e da inferiorização de pessoas estabelecida e vivida com a colonização e, ainda que leis surgissem na história para superar essa realidade, esta estrutura é mantida.

Pessoas negras sempre foram colocadas pela estrutura racista de sociedade em condições inferiorizadas de vida, majoritariamente na pobreza, nas periferias e favelas, com baixos salários, e, por vezes, com a oferta da ilegalidade como recurso para superação das dificuldades. 

Esta situação cria um estigma para a população negra brasileira, o da criminalidade. Pessoas negras são vistas com desconfiança e sofrem com o preconceito da segurança privada e de agentes do Estado. Muitas pessoas negras são tratadas, sem quaisquer motivos, como suspeitas em várias situações, submetidas a humilhações e chegam a ser presas e executadas.

Estes casos se somam a uma infinidade de outros no Brasil, desde aqueles tornados públicos, por pessoas comuns ou mesmo celebridades, até aqueles acobertados ou silenciados, do dia a dia de milhões de pessoas cuja cor da pele é motivo para preconceito, discriminação e segregação. 

No presente, basta ver os índices da covid-19 para identificarmos como opera a estrutura racista segregacionista no Brasil. De acordo com os primeiros números disponibilizados, em abril, pelo Ministério da Saúde, a pedido da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade) e pela Coalizão Negra por Direitos (via Lei de Acesso à Informação), pretos e pardos são 23,1% das pessoas internadas por Síndrome Respiratória Aguda Grave, mas correspondem a 32,8% dos óbitos por covid-19.

Este quadro pode ser ainda pior dadas a subnotificação de casos e mortes e a limitação de acesso a diagnósticos nas periferias, onde a população negra está concentrada.

Tudo isto se agrava quando a maior autoridade do país não esconde o racismo que lhe move, e que tem sido fonte para muitos dos apoios que recebe. Ainda em campanha para a Presidência da República, em 5 de abril de 2017, Jair Bolsonaro afirmou em discurso para parte da comunidade judaica carioca (que reagiu com risadas): “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”.

E assim segue o racismo predominante, a negar o valor humano da negritude e a esconder os muitos negros e negras que fizeram história, nestes séculos do nosso Brasil, como intelectuais em várias áreas do conhecimento, lideranças políticas e comunitárias, artistas. 

Tudo isto é uma ofensa à fé cristã. A Bíblia deixa nítido o desejo de Deus firmado nas relações justas e na reconciliação de toda a sua Criação. Este desejo se manifesta no ato do Criador que fez os seres humanos à sua imagem e semelhança (Gênesis 1.26) e valoriza as diferenças para que não haja dominação de uns sobre os outros (Gênesis 11.1-9), agindo sempre para derrubar todo o muro de separação entre as pessoas, que resulta do pecado que é o desprezo e a intolerância com as diferenças (Efésios 2.8-16). 

O Deus que inspirou a libertação do povo hebreu do Egito é o mesmo que a partir da utopia dos Quilombos levou ao fim a escravidão dos povos africanos em diáspora na América Latina. Foi o espírito de resistência que permaneceu entre a população negra, que levou a séries de movimentos e revoltas que acabaram provocando a abolição da escravidão.

Apesar de haver o pecado dos discursos e práticas racistas entre as próprias igrejas e suas lideranças, há cristãos ao longo da história que fomentam uma leitura da fé para superação do racismo. Eles formam consciências e inspiram movimentos por justiça e igualdade que têm marcado o mundo. Entre eles estão o batista Martin Luther King e o metodista Nelson Mandela. No Brasil são muitos os nomes de homens e mulheres negros que levam adiante a história de consciência e libertação.

O clamor por justiça e igualdade deve continuar a ser levantado não apenas pelas pessoas negras, mas por todos nós que confessamos o racismo como pecado e ofensa, e assumimos o compromisso radical por superá-lo a fim de transformar esta realidade injusta.

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