Dez músicas de Aldir Blanc que explicam um país que está “de frente pro crime”

Compositor de clássicos como o "Bêbado e o Equilibrista'' e ''Querelas do Brasil'' faleceu na segunda-feira (4)

Ricardo Prestes Pazello

Em meio a atos reacionários de grupos de direita que pedem o retorno do regime militar, o Brasil assistiu à morte do "poeta da anistia", o compositor e cronista brasileiro Aldir Blanc, vítima de covid-19. Um pouco de todos nós morremos nessa segunda-feira (4) junto com Blanc. E, “de frente pro crime” (como diriam Aldir e João Bosco, para escolher uma de sua imensa coleção de canções), com muitos corpos estendidos em valas comuns.

Para prestigiar o compositor de grandes clássicos da música popular brasileira, o Brasil de Fato Paraná selecionou dez músicas para explicar a conjuntura política de um país que esteve e está “de frente pro crime”.

Veja a seleção de músicas selecionadas abaixo:

- De Frente pro Crime (Aldir Blanc e João Bosco)

A partida de Aldir Blanc, seguida da morte de Flávio Migliaccio (a carta deixada pelo ator originado no CPC da UNE e no Teatro de Arena é um dos documentos mais tristes de nossa história recente) parece invisível à cultura do ódio reinante na República terraplanista do Brasil.

Regina Duarte, atual ocupante da Secretaria de Cultura, parece não ter dignidade cultural alguma. Só segue, silente e amedrontadamente, seu chefe coronário. Isto, aliás, faz lembrar o discurso de João Calvoso, na trilha de Era no Tempo do Rei, composta por Carlos Lyra e Aldir Blanc, para o livro de Ruy Castro sobre a chegada da família real ao Brasil, no século XIX:

Ária do Calvoso (Aldir Blanc e Carlos Lyra) – com André Dias

“Criminoso, oportunista e cão servil”, além de outros adjetivos de mesmo quilate: alguém tem dúvida de que cabem perfeitamente para o “estróina” de plantão? Aliás, outra do Aldir, dessa vez em parceria com Sílvio da Silva Júnior, que serve como luva no contexto atual é o “Amigo da onça”.

As minhas músicas preferidas da dupla Blanc e Silva Júnior são mais românticas (“Nada sei de eterno” – na incrível expressão de Taiguara) e fraternas (“Amigo é pra essas coisas”), no entanto, para o momento a perfeita mesmo é a resposta dos próprios autores para o tema – “Amigo é pra essas coisas 2”:

- “Amigo da onça ou amigo é pra essas coisas 2” (Aldir Blanc e Sílvio da Silva Júnior) – com MPB4
 Você se Agarra Direitinho no Passado, Tô Falando e Andando (expressão tipicamente brasileira censurada na canção), Quem Está Incomodado Que se Mude, Que Ingratidão, Teu Caso só Bordoada Cura: todos versos que, sem tirar nem pôr, expressam a briga do ex-juiz com o presidente-insano. Um vive do passado, outro arrependido teve que se mudar. Só bordoada de Brasil na cara dos dois para curá-los...

Pois é, Aldir Blanc era um desses poetas apaixonados pelo Brasil, que vagava sem ser ouvido. Brincando com Ary Barroso ou Silas de Oliveira, deu sua versão para a exaltação do nosso país com suas Querelas do Brasil (compostas com Maurício Tapajós). Como pode uma música exaltar e criticar tão bem ao mesmo tempo?

Querelas do Brasil (Aldir Blanc e Maurício Tapajós) – com Elis Regina
 Em minha opinião, a maior lição sobre quem são as classes sociais dominadas no Brasil – a nova classe operária, o proletariado, a classe-que-vive-do-trabalho, enfim, o povo – está no O rancho da Goiabada (também parceria com Bosco). Professoral e ironicamente eu diria – senão vejamos:
- “O rancho da goiabada” (Aldir Blanc e João Bosco) – com Quarteto em Cy
 Mas como poeta maior também Aldir, assim como tantos outros, cantou a América Latina. A parceria com a incrível Sueli Costa – à qual se juntou o também importantíssimo companheiro de composições Paulo Emílio – dedicada Para os Meninos da Nicarágua é notável:
- “Para os meninos da Nicarágua” (Aldir Blanc, Sueli Costa e Paulo Emílio) – com Sueli Costa
O final agonizante da canção é depoimento oposto ao que vivemos no Brasil de hoje: “disposto a doar seu sangue, gota a gota, a gota, a gota... Como gotejam os soros nas noites dos hospitais” um guerrilheiro sandinista se sacrifica para uma nova sociedade.

Engraçado que a carta de Migliaccio pedia para que cuidássemos de nossas crianças. Terão esses meninos e meninas futuro?

Bom, o fato é que Aldir era médico de formação, com especialidade em psiquiatria. Continua tendo muito a nos ensinar nesse mundo “louco”. E ainda tem espaço para criticar os planos de saúde, o imperialismo e o estresse do mundo do trabalho moderno no seu sugestivo Baião de Lacan, feito a quatro mãos com o desventuroso parceiro de análises, o grande Guinga:

Baião de Lacan (Aldir Blanc e Guinga) – com Leila Pinheiro e Guinga
 Quando todos recebemos a notícia da internação de Aldir, comoção inevitável; seu passamento agora então, comoção geral. O Brasil internado e morto num hospital de Vila Isabel.

Deixa muita saudade, assim como a que ele tinha pela Guanabara. Minha música preferida dele, inclusive, são as Saudades da Guanabara, em coautoria monstruosa ao lado de Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro (se juntássemos Vinícius e Chico, teríamos o quinteto letrista perfeito do Brasil):

Saudades da Guanabara (Aldir Blanc, Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro) – com Moacyr Luz
 “E na Vista Chinesa solucei de dor pelos crimes que rolam contra a liberdade”! Quanto simbolismo sem querer querendo!!! E certamente é a China que nos acusa os crimes do capitalismo neofascista brasileiro... 
O pedido do salgueirense e vascaíno Aldir para o Brasil tirar “as flechas do peito do meu Padroeiro” é muito forte. Um santo negro vilipendiado simbolizando o Rio como metáfora de todo um país. Impossível não recordar de uma Lua Sobre Sangue como a que ilumina o Salgueiro do poeta (em composição conjunta com Cláudio Jorge):

Lua Sobre Sangue (Salgueiro) (Aldir Blanc e Claudio Jorge) – com o próprio Aldir Blanc
 Alta poesia, no meu modesto modo de ver... Mas altamente popular, também. Espécie de reverso de um Gregório de Matos no século XVII, e sua crítica ferina mas conservadora. 
Com essas veredas da canção de Aldir Blanc, apresento, na verdade, minhas preferências dentro de seu repertório genial, priorizando a pluralidade de parceiros e intérpretes. É verdade que faltou uma “pá” de músicas ao lado de João Bosco, unha-e-carne como este último mesmo disse, por ocasião da morte do camarada.

Mas as que foram citadas servem para representar outras obras-primas como inegavelmente o são O Mestre-Sala dos Mares, O Bêbado e a Equilibrista, A Nível de..., Escadas da Penha, Gênesis, Incompatibilidade de Gênios, Kid Cavaquinho, Linha de Passe, Nação, O Cavaleiro e os Moinhos, Plataforma, Ronco da Cuíca, Siri Recheado e o Cacete e Tiro de Misericórdia... ufa!

Por fim, a poesia aberta ao tempo que tudo sara, como carta-testamento de Aldir Blanc, sobre o piano de Cristóvão Bastos:

- Resposta ao Tempo (Aldir Blanc e Cristóvão Bastos) – com Nana Caymmi

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer... 
Ninguém vai poder esquecer o nosso grande poeta! Aldir Blanc é Aldir Blanc para sempre!

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