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SOB INTERVENÇÃO DO GOVERNO - TV Brasil suspende programa ‘Sem Censura’

Medida faz parte do plano de reestruturação da EBC, que é coordenado pelo ministro da Secretaria de Governo, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz

O programa “Sem Censura”, da TV Brasil, foi suspenso por determinação do Palácio do Planalto. Na última terça-feira, 29, a assessoria da emissora informou o cancelamento da edição ao vivo do programa de entrevistas, apresentado pela jornalista Vera Barroso.

Segundo o comunicado, “o programa ao vivo foi interrompido na atual temporada, devendo ser reavaliado para a próxima grade junto com a nova programação”. A partir desta quarta-feira, 30, serão exibidas apenas reprises do programa e não se sabe se ele fará parte da nova grade da emissora, que estreia em 11 de março.

A jornalista Vera Barroso foi avisada que estava dispensada, bem como outros funcionários de sua equipe. No ar desde 1985, ainda pela TVE, o Sem Censura é um dos principais programas da TV Brasil e promove debates sobre temas relevantes no Brasil e no mundo. Entre os temas abordados nas últimas edições estão os 465 anos da cidade de São Paulo, a tragédia de Brumadinho e a reforma de Previdência.

A retirada do programa da grade da emissora foi apresentada pelo governo como um plano de reestruturação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), empresa de comunicação pública da qual a TV Brasil é o carro-chefe. O plano de reestruturação está sendo coordenado pelo ministro da Secretaria de Governo, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz.

Santos Cruz já afirmou em entrevistas que planeja unir a grade da programação da TV Brasil (uma emissora pública) à grade da TV NBR (agência oficial do governo). Tal junção é alvo de intensas críticas, uma vez que transformaria a emissora em mera porta-voz do Planalto. Para críticos, trata-se de um desmonte da emissora, iniciado pelo governo Michel Temer e continuado pelo governo Bolsonaro.

Além do Sem Censura, foi extinto o Repórter Brasil Maranhão, programa jornalístico produzido pela TV Brasil no estado. A ação foi criticada pela jornalista Tereza Cruvinel, uma das que participou da fundação da EBC. “É uma medida horrível, que desvaloriza a produção de conteúdos locais. O Brasil é um país onde as grandes emissoras de TV produzem a partir de Rio e São Paulo, inundando o Brasil a partir de notícias verticais, então, é muito ruim acabar com o telejornal local que a TV Brasil faz em São Luís”, disse a jornalista”, segundo noticiou o portal Brasil de Fato.

Desmantelamento

O processo de desmantelamento gradual enfrentado pela EBC começou há quase três anos. Em 2016, a EBC foi alvo de um embate envolvendo a presidência da empresa. Em 3 de maio daquele ano, a então presidente Dilma Rousseff nomeou o jornalista Ricardo Melo diretor-presidente da EBC.

Porém, em maio, quando assumiu interinamente a presidência da República, Michel Temer exonerou Ricardo Melo e indicou em seu lugar o jornalista Laerte Rimoli. A indicação, no entanto, não seguiu as normas do estatuto da empresa e foi suspensa em junho daquele ano, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Porém, Rimoli permaneceu no cargo até maio de 2018, graças a uma manobra de Temer, que extinguiu o conselho curador da EBC, que era formado por representantes da sociedade civil e responsável por dar o caráter público da empresa. Temer também propôs reduzir a atuação e os custos da EBC. A medida abriu margem para a permanência de Rimoli, já que a indicação de um diretor-presidente deixou de necessitar da aprovação do conselho curador. Rimoli permaneceu no cargo até maio de 2018, quando foi substituído pelo diplomata Alexandre Guido Lopes Parola, que permaneceu no cargo até dezembro de 2018, quando foi substituído pelo administrador Luiz Antonio Ferreira.

A ascensão de Rimoli foi cercada de polêmicas, uma vez que ele era ligado a Eduardo Cunha e chegou a depor como testemunha de defesa da esposa do ex-presidente da Câmara, Cláudia Cruz, num processo que a acusava de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ele também se envolveu em polêmica após compartilhar nas redes sociais uma postagem zombando de uma declaração da atriz Taís Araújo sobre o racismo enfrentado por seu filho. Após a polêmica, Rimoli pediu desculpas pelo ato.

Além disso, em 2016, Rimoli mirou o próprio “Sem Censura” ao determinar a demissão da jornalista Leda Nagle, que comandava o programa há 21 anos. Na época, Nagle publicou em sua conta no Twitter um texto criticando a forma como a demissão foi feita.

Em março de 2018, a EBC foi alvo de uma comissão externa da Câmara criada pelo Psol por conta de uma determinação de Rimoli para restringir a cobertura do assassinato da vereadora Marielle Franco e não noticiar manifestações em homenagem à parlamentar. A censura da cobertura foi rechaçada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal e por repórteres e editores da EBC de Brasília, que fizeram protestos nas redes sociais denunciando a trava na cobertura do caso.

No ano passado, durante sua campanha presidencial, o atual presidente Jair Bolsonaro (PSL) mirou diversas vezes a EBC, reafirmando seus planos de extinguir ou privatizar a empresa, sob o argumento de que ela “tem um traço de audiência”. Em novembro, após as eleições, a EBC iniciou um plano de missão voluntária. Diante da declaração, o atual diretor-presidente da EBC, Luiz Antonio Ferreira, passou a articular junto ao governo sua permanência no cargo. A articulação deu certo, já que, segundo apurou a revista Crusoé, Bolsonaro deve mantê-lo no posto. Porém, desde então, não há conteúdo crítico veiculado na emissora, que adotou uma abordagem similar à de uma agência oficial de governo, como a chinesa Xinhua, que não publica conteúdos críticos ao presidente Xi Jinping nem de teor investigativo sobre sua gestão.

A mais recente polêmica envolvendo a emissora ocorreu na semana passada, quando veio à tona a determinação para não cobrir a renúncia do deputado Jean Wyllys (Psol-RJ). A decisão gerou polêmica, especialmente no meio jornalístico, por ser considerada censura. Na última terça-feira, 29, a gestão da empresa optou por noticiar o caso.

Fundada em dezembro de 2007, a EBC tinha como missão ser uma “BBC brasileira”: uma empresa de comunicação pública, voltada à formação do pensamento crítico do telespectador, sem influência comercial ou política. Esse tipo de emissora existe em várias democracias do mundo. Nos EUA, há a PBS; no Reino Unido, a BBC; na França, a France Télévisions; na Alemanha, a Deutsche Welle.

Diferentemente de uma emissora comercial, a meta de uma emissora pública não é registrar altos índices de audiência para arrecadar verba com anúncios, mas sim apresentar uma cobertura voltada para a sociedade.

Um exemplo disso pôde ser observado nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Na ocasião, a Rede Globo, uma emissora comercial, montou um estúdio dentro da cidade olímpica para cobrir o evento. Após o encerramento, quando tiveram início os Jogos Paralímpicos – cuja audiência é mais baixa – a estrutura foi abandonada. Ficou ao encargo da TV Brasil transmitir o evento, já que, apesar da baixa audiência, trata-se de um tema relevante para a sociedade, especialmente para pessoas com deficiência.

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