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Após sofrer ameaças de morte, Márcia Tiburi deixa o Brasil

Ela está vivendo em algum lugar do nordeste dos EUA desde dezembro, onde foi convidada para uma residência literária (ela prefere não revelar o local por razões de segurança)


Após se candidatar ao Governo do Rio pelo PT, intimidada com ameaças, necessidade de andar com seguranças em eventos, uma enorme força-tarefa para contra-atacar mentiras na internet e ter a vida pessoal virada do avesso, a filósofa e escritora Marcia Tiburi mudou-se do Brasil. Está vivendo em algum lugar do nordeste dos EUA desde dezembro, onde foi convidada para uma residência literária (ela prefere não revelar o local por razões de segurança). Ela conta que está morando em uma Universidade que abriga escritores em risco.

“Eu não podia ir a uma padaria, recebia ameaças de morte, não dava para viver assim”, diz a escritora, em entrevista exclusiva para o blog de Pittsburgh, onde faz uma residência literária. Na semana seguinte, mudaria com o marido para Paris.

Márcia conta, com lágrimas nos olhos, que teve que sair por não se sentir segura, sofrer ameaças de morte e não poder mais ir na esquina.

“Eu amo o meu país, nunca pensei em sair do Brasil na minha vida, é muito triste e difícil ter que sair do meu país por não me sentir segura e não poder fazer mais o meu trabalho.”

Ela conta que a sua vida virou um inferno desde o episódio da radio Guaíba (Na ocasião, Marcia se recusou a participar de uma entrevista com Kim Kataguari, o vídeo da entrevista viralizou). “Você não tem ideia da quantidade de ameaça de morte que eu recebi pela internet”, diz.

“Eu não podia ir mais na farmácia, no supermercado. Um dia eu caí na besteira de entrar no metrô em São Paulo. Fui atacada por um cara que gritava comigo: ‘eu tenho orgulho de ser fascista! Eu tenho orgulho de ser fascista’. Foi muito assustador porque o sujeito caía no estereótipo mesmo de um fascista, fisicamente até.”

Ela conta que seus eventos literários começaram a ser inviabilizados. “Eu vivia indo a festivais, feiras de livros. Eu amava fazer isso. Desde aquela época, todos os meus eventos passaram a ter segurança. Teve coisas muito absurdas, brigas. Recebia uma mensagem: ‘quando você estiver lá, assinando o livro, eu vou estar lá e vou te matar’. E na rua, durante a campanha, andei sempre de carro blindado”, conta.

O momento em que Márcia decidiu sair do Brasil foi quando o Movimento Brasil Livre (MBL) fez uma página sobre um evento que iria fazer em Maringá, chamando pra uma manifestação. “Queriam até proibir o evento. E foi muita gente lá para me apoiar em reação. Nesse dia estava todo mundo tão assustado que os organizadores providenciaram uma segurança armada, que revistou todas as mochilas e bolsas de todas as pessoas. Como que eu como escritora, vou viver em um lugar onde tem milícias midiáticas, milícias armadas, milícias da maledicência me atacando, e também atacando o conforto e a segurança dos meus leitores?”, pergunta.

Para ela, Bolsonaro e seus filhos naturalizam esse tipo de atitude: “Tem uma fala da Meryl Streep interessante, num momento desses em que o Trump debocha de um jornalista que tem uma deficiência física, ela disse: ‘acho um absurdo o presidente fazer isso porque autoriza esse tipo de postura’. O Bolsonaro e seus filhos fazem coisas parecidas. Eles autorizam todos a fazerem coisas horríveis”, alerta.

“Delírio do poder”

Márcia, que é autora de mais de vinte livros de filosofia e ficção, acaba de lançar “Delírio do poder”. Na nova obra, ela trata justamente da loucura coletiva na era da (des)informação e da necessidade de se valorizar a reflexão em meio aos descaminhos de um governo que ameaça a democracia e induz ao narcisismo adquirido.

O livro é dedicado a Lula e Marielle Franco e inspirado parcialmente por “Memórias do cárcere”, de Graciliano Ramos, e “Totem e tabu”, de Freud, entre outros.

“O Delírio do Poder”. Editado pela Record, é um ensaio sobre o Brasil político de 2018 e as eleições. Ao mesmo tempo, traz uma narrativa interna sobre a participação de Tiburi na campanha do Rio. É um livro de testemunho e filosofia.

Na semana passada, ela recebeu uma carta de Luiz Inácio Lula da Silva que irá para a orelha do livro. Aqui está, na íntegra:

À Márcia Tiburi não falta coragem. Nas suas opiniões, ideias atitudes, ela não tem medo de arriscar, de dizer o que pensa e sente, de correr o risco de desagradar. Ela não vai se calar diante de uma injustiça ou para manter um espaço em um canal de TV. Ela não vai nunca abdicar da sua voz e das suas reflexões. Ela vai dizer e escrever o que ela pensa. O seu leitor pode ter certeza disso.

Conheci a Márcia pela sua coragem nas suas análises, opiniões, livros e na sua vida.
E ano passado ela teve a coragem de ir além de analisar e escrever sobre o cenário político para participar das disputas eleitorais, algo que pouca gente tem coragem de fazer.

A política é ao mesmo tempo a atividade mais exigida pela sociedade e a mais criticada. As pessoas exigem mais de um político do que muitas vezes exigem de si mesmas. E não importa quem seja o político, a satisfação a quem depositou sua confiança nele.

Claro que a política é cheia de falhas, porque é humana. Mas quando se nega a política, o que vem depois, e estamos vendo isso hoje no Brasil, é sempre pior.

Márcia, em um momento muito difícil do país, e em especial do Rio de Janeiro, teve a coragem de assumir o desafio de ser candidata, de se propor a cuidar da população, a conversar e entender seus problemas e aflições.

Eu sei que uma experiência dessas é transformadora e teve fortes efeitos nas suas reflexões sobre o momento atual, tornado esse livro ainda mais interessante ao unir a cultura e teoria que a Márcia conhece com a sua experiência prática no desafio nas ruas, na imprensa, nas mídias sociais, em debater política no mundo de hoje.

Esse livro é mais uma coragem dela de pensar e agir livremente. Liberdade tão essencial ao ser humano. Porque podem prender a democracia, mas a cada quatro anos ele tem que sair na rua para pedir voto, no sol, na chuva, dando suor nos nossos corpos, mas é a coragem e o pensamento que nos fazem livres e não prisioneiros 

(Lula).

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