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Testemunha-chave acusa Globo de pagar propina à Fifa

Um empresário argentino, testemunha-chave no julgamento sobre corrupção da Fifa, afirmou nesta quarta-feira (15) que as empresas TV Globo, do Brasil; Torneos, da Argentina; e Televisa, do México, pagaram propinas milionárias a cartolas da Fifa (Federação Internacional de Futebol) em troca dos direitos de transmissão da Copa do Mundo.


O argentino Alejandro Burzaco, ex-presidente da Torneos y Competencias, assegurou na corte federal do Brooklyn que sua empresa e seus sócios, Televisa e TV Globo, pagaram ao ex-vice-presidente da Fifa, Julio Grondona, 15 milhões de dólares para terem os direitos de transmissão por TV, internet e rádio das Copas do Mundo de 2026 e 2030. O depoimento ocorre após o suicídio, em Buenos Aires, de um ex-funcionário da associação de futebol da Argentina, denunciado por Burzaco como integrante do esquema de corrupção.

O próprio Burzaco, acusado no âmbito do escândalo da federação internacional, tem um pacto de colaboração com o governo americano para reduzir sua pena e é testemunha-chave da promotoria no julgamento de três poderosos ex-cartolas do futebol sul-americano, entre eles, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, José Maria Marín, que teria recebido US$ 2,7 milhões.

Atualmente, Marin cumpre prisão domiciliar em Nova York. Os outros dois beneficiados seriam os ex-chefe do futebol no Peru, Manuel Burga (US$ 3,6 milhões), e o ex-presidente da Conmebol e ex-vice-presidente da Fifa, o paraguaio Juan Ángel Napout (US$ 4,5 milhões. Os três acusados alegam inocência.

Ameaça de morte na corte

Tanto a testemunha, quanto os acusados integram o grupo de 42 ex-dirigentes de futebol das Américas e empresários esportivos, acusados de corrupção pelo governo americano. Burzaco começou seu segundo dia de depoimentos na corte visivelmente perturbado, chorando. A juíza fez uma pausa de uma hora e meia. Muitos pensaram que se devia ao suicídio de Delhon, mas a promotoria denunciou, ao fim do dia, que a testemunha estava perturbada porque Burga fez para ele, duas vezes, um gesto com a mão como se quisesse decapitá-lo.

A juíza Pamela Chen decidiu, então, restringir ainda mais a liberdade condicional de Burga. "Foi cometido um novo crime: intimidação de uma testemunha", afirmou a promotora Kristin Mace, que pediu para prender Burga. "Este é um homem tímido e tranquilo", disse seu advogado, Bruce Udolf. "Ele coçou o pescoço".

Propinas para Mundiais

Burzaco contou que a propina paga a Julio Grondona - falecido em 2014 - acabou em uma subconta no banco suíço Julius Baer. Graças ao acordo, a Fifa outorgaria à TV Globo os direitos exclusivos dos jogos dos dois mundiais no Brasil, enquanto a Televisa e a Torneos, associados, os teriam para o restante da América Latina, afirmou.

Burzaco garante que, além de sua empresa, as companhias TV Globo, Televisa, MediaPro da Espanha, Full Play, Traffic e Fox Sports pagavam subornos em troca de contratos de torneios de futebol da região. O argentino afirmou, ainda, que a Datisa - joint venture entre Torneos y Competencias, Traffic e Full Play para reter os direitos da Copa América entre 2015 e 2023 – concordou, em março de 2013, pagar US$ 10 milhões em propinas a Jeffrey Webb, presidente da Concacaf, e a Enrique Sanz, seu secretário-geral, pela realização da Copa América Centenário em 2016 nos Estados Unidos.

Burzaco disse ter se reunido com Sanz em Zurique em março de 2013 para coordenar "o calendário de pagamentos desses US$ 10 milhões de dólares". A Fox Sports e o Grupo Globo negaram as acusações.

"Qualquer insinuação em relação a que a Fox teve conhecimento ou aprovou subornos é absolutamente falsa", reagiu a Fox Sports em sua conta no Twitter do Chile. Em termos similares, segundo veículos brasileiros, o Grupo Globo afirmou "veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que, após mais de dois anos de investigação, não é parte nos processos que correm na justiça americana".

Suicídio após revelações

Jorge Delhon se suicidou na terça-feira, atirando-se debaixo de um trem em um subúrbio de Buenos Aires, após ser mencionado por Burzaco uma única vez em seu primeiro testemunho de sete horas. Consultado na própria terça-feira pelo promotor Sam Nitze se pagou propinas a funcionários do governo argentino, Burzaco disse que do fim de 2011 ao fim de 2014, "pagamos subornos na Torneos a dois funcionários que gerenciavam o programa Futebol para Todos", um programa de TV patrocinado pelo governo de Cristina Kirchner (2007-2015), que tinha os direitos de difusão do futebol na Argentina.

Jorge Delhon, advogado do programa, e seu coordenador-geral, Pablo Paladino, receberam milhões de dólares, informou. Mas disse nunca ter pago propinas à ex-presidente Cristina Kirchner. Paladino disse nesta quarta-feira à Radio con Vos, de Buenos Aires, que Delhon era "um homem honrado" e qualificou Burzaco de "delinquente e sem-vergonha".

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