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Índios Guaranis podem ficar sem terra em São Paulo

Tudo começou na segunda-feira 21/08 quando o Ministério da Justiça publicou no Diário Oficial da União, uma revogação sobre a criação da reserva indígena no Pico do Jaraguá, na zona Norte de São Paulo. Com a decisão, a pasta anulava a Portaria 581, de 2015, que garantia mais de 500 hectares de terra aos guaranis.
Na publicação, o governo federal alega erro administrativo e que a reserva "foi demarcada sem a participação do Estado de São Paulo na definição conjunta das formas de uso da área".

Em seu perfil na rede social Facebook, o líder guarani David­ Karai Popygua, o David Guarani, pediu apoio de todas os caciques, lideranças e apoiadores do movimento indígena para reverter a decisão do governo Temer. Segundo ele, a situação já era complicada para a comunidade e tendem a se complicar ainda mais. "As aldeias do Jaraguá respondem a quatro processos de reintegração de posse e essa medida pode piorar muito nossa situação. Pela primeira vez, desde o período da criação do procedimento demarcatório, o Ministério da Justiça revoga uma portaria que já tinha sido assinada", lamenta.

"A Terra indígena do Jaraguá está sofrendo um grande golpe do governo golpista. Vamos lutar até o ultimo Indígena contra essa medida", completou David.

Cerca de 700 pessoas vivem na comunidade. Os indígenas sofre com a pressão do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que quer conceder áreas florestais a grupos empresariais.
"Os brancos não entendem nossa ligação com a terra, porque não moram na floresta", diz Tupá Mirim, moradora de Jaraguá, uma reserva indígena a 20 quilômetros de São Paulo, decidida a resistir à redução dos seus limites territoriais.

"As pessoas acham que não há índios em São Paulo", ri o cacique Antonio Awá, tupi-guarani, mas o estado abriga 29 territórios indígenas, menos da metade dos regularizados, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai).

A reserva de Jaraguá foi delimitada em 532 hectares em 2015, porem com revogação sobre a criação da reserva  no mês passado o governo federal anulou o decreto. Se passar a valer, os 720 habitantes da região ficariam espremidos em um território mínimo, de apenas 1,7 hectare, regularizado em 1987.
Das cinco aldeias no local, só restaria uma, a de Ytu, separada das demais pela rodovia dos Bandeirantes, que homenageia os desbravadores que exploraram e escravizaram a população indígena no século XVI.

Do outro lado, crianças descalças correm, em meio a dezenas de cães, pelos caminhos de terra de Tekoa Pyau, a "aldeia de cima".

As casas são caixas rudimentares de madeira ou latão, sem divisões, algumas adornadas com grafites. O verde e marrom da natureza predominam. Poucas estruturas têm instalações de água e os banheiros são comuns.

Um casarão de cimento, onde funciona a pré-escola, se destaca na paisagem.
Ytu tem mais infraestrutura: água corrente nas casas, construídas nos anos 1990 pelo governo federal, um centro de saúde e uma escola estatal, que recebe 200 alunos. Lá, eles aprendem português a partir dos oito anos. A língua materna ainda é o guarani.

Jurandir Karai Jekupe, guarani de 41 anos, mora em uma dessas casas de cimento: um pequeno galpão com um telhado de duas águas. Ele o reformou para dividir em quarto e sala.

"Quando eles construíram, devem ter pensado: 'São índios, quarto pra quê, dormem nas redes'", ironiza, enquanto mostra as outras melhorias que fez no espaço, que divide com sua mulher.

guaranis aldeia jaraguá
Cerca de 700 indígenas moram na comunidade. Destes, pelo menos, 400 crianças
A filha deles morreu em junho, antes de completar um ano. "A certidão de óbito fala de uma bactéria, mas eles nunca me explicaram o que realmente aconteceu", diz, cético. A mortalidade infantil, completa, é um problema na comunidade.

A Unidade Básica de Saúde, de medicina preventiva, abre oito horas por dia com dois médicos. As infecções respiratórias são comuns, conta uma enfermeira, que pede para ter a identidade preservada, embora assegure que o centro atende à demanda.

Thiago Karai, guarani de 22 anos, discorda: "É super pequena, sem estrutura física para poder atender de forma humana e adequada a comunidade".

"O hospital mais perto está a cerca de 10 quilômetros, mas é horrível", critica Jurandir, que não tem fotos em casa da bebê que morreu. "Por tradição", explica.

- Problemas trazidos 'pelos brancos' -
Jurandir, professor da quinta série em uma escola estadual, diz que vários problemas chegaram de fora, como a contaminação e a seca do rio Ribeirão das Lavras, que passa por Ytu e antes abastecia a comunidade. "Um dos braços chega só com águas negras. Fizemos um documentário para sensibilizar, mas não conseguimos nada", lamenta.

"Outro problema trazido pelos brancos" é o abandono contínuo de animais, diz Jurandir. Com cerca de 500 cachorros e 200 gatos - castrados e vacinados por ONGs e pelo Departamento de Zoonoses -, é difícil andar sem ouvir latidos.
Thiago critica que a escola não tenha uma cantina e que os meninos tenham que comer fora, perto dos animais.
A ameaça de desalojamento com a decisão do governo é discutida nas cinco aldeias da reserva, que têm por hábito debater assuntos que impactem sua herança.


Outro tema na pauta é a manutenção do Bolsa Família. "No nosso modo de vida tradicional, a gente não precisa de dinheiro para comer. O Bolsa Família virou 'o dinheiro das crianças', e eles estão ficando mal acostumados com isso", dependentes da moeda, disse o guarani Evandro Tupá.

Por ora, o tema central é a demarcação de terras, demanda de outros povos indígenas em todo o país. Numa cerimônia de líderes guarani-kaiowá, que vieram do Mato Grosso do Sul para protestar, Elizeu Lopes exclamou: "Temer não é o dono da terra, se há união, Temer não vai fazer o que quiser".

Fora da casa de orações, a determinação para resistir é total. "No começo, a gente levou um susto, mas a gente não abaixa a cabeça, lutar é o que a gente faz há mais de 500 anos", diz Tupá Mirim, de 19 anos.

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