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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Rafa Braga - O filho da manicure venceu

Por Rafa Braga

Ontem eu me formei definitivamente. E mais que deixar algumas palavras, eu queria contar uma história. 

1991, o ano que no Brasil e no mundo estavam acontecendo várias coisas importantes, foi o ano que nasci. 

Foi então a primeira vez que desacreditaram, criança cheia de doença, alergias, dava prejuízos com remédio pra mãe

"esse aí não vai longe"

Fui crescendo e com isso, veio comigo uma porrada de estereótipos, de preconceitos, de dificuldades e maior que isso tudo, pessoas dizendo o tempo todo que eu não ia longe. Entrei na escola, e logo já tava dando dor de cabeça. Não parava quieto, aprendi a ler e escrever rápido. 

"Mãe, teu filho não tem capacidade pra estar nessa turma."

Eu estava na segunda série quando falaram isso pra minha mãe, o indicado era me passar uma prova da quarta série pra eu poder fazer e se eu fizesse, poderia adiantar séries. E foi o que aconteceu. Fiz a quarta série, cheguei na quinta, era outro mundo, outro universo. 

"Mãe, seu filho não tem maturidade suficiente pra estar nessa turma."

Fiz a quinta série duas vezes por conta disso. E ainda sim terminei os estudos adiantado. 

Filho criado com mãe que se desdobra em 5 pra trazer alimento pra casa, e que não tem tempo pra outras coisas. Não tem tempo pro afeto, não tem tempo pra observar os talentos dos filhos, não tem tempo pra saber sobre os sonhos. Temos que trabalhar, o importante é comer, é ter o básico na mesa. 

Temos que trabalhar, 

cresci rápido que nem vi, quando pisquei já tinha que trabalhar, já tinha que de alguma maneira, ajudar nas contas de casa, levar nem que seja o pouco, pra ajudar como podia. Amava jogar futebol, joguei em vários times amadores, sonhava em vestir a camisa da seleção. 

Temos que trabalhar 

Na rua o que eu escutava era: Quem pariu Mateus que se balance, esse aí não passa dos 15 anos, jajá ele vira bandido. 

Era o que a sociedade me jogava na cara dia após dia, é o que a sociedade ainda joga na nossa cara dia após dia. Fiz 14 anos, 15, 16, tava vivo, trabalhando e saindo do ensino médio, mais uma vez desacreditado, e mais uma vez contrariando a estatística. É fácil? Não é, nunca é, não temos exemplos, não temos pessoas engajadas em construir nosso futuro, não temos escola, não temos reforço cultural. A diversão é a rua e a sorte é de se desviar do caminho ruim.

Osmose 

Temos que trabalhar

Não fiz coisas que as crianças normais fazem, não fiz coisas que os jovens normais, fazem. Me sinto velho demais por isso. Já me equilibrava entre estudo, trabalho, e as várias dúvidas sobre a vida. O que eu vou ser? O que vou fazer? Como vou fazer? Pra onde? E meus sonhos sendo deixados pra trás, afinal. Temos que ficar mais tempo acordados pra fazer acontecer. E as vozes o tempo inteiro dizendo que você não vai conseguir. 

Temos que trabalhar. 

É melhor resumir

Servi o exército com intuito de consegui grana pra fazer faculdade, pra ter um bom emprego, pra conseguir grana pra sustentar a casa. Engraçado o quanto pra gente tudo gira em torno disso: Trazer comida pra casa. Não consegui continuar na faculdade, o exército não me permitiu. Dois anos depois, consegui uma bolsa no Iesb pra Publicidade e no IFB pra técnico em edificações. 

"Mãe, eu consegui duas bolsas de estudo, então como eu não preciso trabalhar pra pagar, eu vou estudar, quando me formar, eu vou ter um emprego melhor."

-Se você não trabalhar, você pode ir embora da minha casa. 

Eu que passei a vida tomando soco na cara, nunca tinha tomado um tão forte quanto esse e que até hoje dói. E dói muito. Mas não só por mim, mas por tantos e tantos sonhos que são engolidos por: Ter que trabalhar pra viver. Por quantas frustrações nascem por conta de um apoio que morre. Nesse meio tempo eu descobri a dança também, um dos maiores amores que tenho. Mas dança exige dedicação, exige apoio, ahh se exige. E em um país onde arte é nada, na quebrada, a gente nem sabe o que isso é. 

Tenho que trabalhar

Tive que tomar uma decisão na minha vida que me doeu. abandonar tudo e trabalhar, tentar conciliar, o que fazer? Peguei a bolsa da faculdade, horário era de manhã, era melhor pra estudar, mas e trabalho? Tenho que trabalhar, arrumei vários sub-empregos pra me manter com o básico e não me atrapalhar tanto na vida acadêmica. 

Eu não citei sobre meus questionamentos né? Sobre o começar a entender o quanto o racismo era assustador, era real e massacrava. Agora eu sabia porque eu não gostava do meu cabelo, porque minha mãe não gosta ainda do meu cabelo. Porque eu sempre ouvia: Tinha que ser preto. 

Cheguei na faculdade, pegava dois ônibus e ainda mais uma caminhada pra chegar até lá, e aí choques e mais choques de realidade. Universo novo, cabeças novas, e cadê meus iguais? Madrugadas e mais madrugas de sono perdido pra conseguir fazer as tarefas, afinal, era o tempo que tinha. Aulas e mais aulas perdidas porque eu não conseguia acordar, afinal, eu dormia tarde. Eu não tinha computador, e o que tinha lá em casa, minha mãe não deixava eu usar. 

Por várias vezes pensei em desistir, mas nada até então era só pensamento, fui ter meu computador já no quinto semestre da faculdade. De antemão, passei muito perrengue pra poder fazer o que tinha que fazer. Mas segui. 

O sistema quer que a gente pare, a faculdade é uma guerra sem fim como nós mesmos. E não desistir é uma luta com nossa sanidade. Chegou momentos de eu ficar à beira de chutar tudo pro alto. Eu poderia tomar duas decisões, uma fácil e uma difícil.

A fácil: Desistir do curso
A difícil: Desistir do curso

Eu não sei qual eu tomei, mas sei que fui até o final. Trouxe comigo um peso enorme nas costas, único negro me formar na turma, numa faculdade onde não tive aulas com nenhum professor negro. É mais um relato de um sistema que massacra, que impede, que afasta a gente do que deveria ser comum e acessível pra todos, e não é. Não é mesmo. Não conseguem enxergar o quanto isso é alarmante, o quanto isso é cruel de devasto, a maioria da população é negra, mas é a minoria nas academias, é minoria nos grandes cargos, e será mesmo que é porque simplesmente eles não querem? 

Saí de casa pra me formar, pra ter cabeça pra continuar, perdi empregos, pagava aluguel, morei de favor. Nesse trajeto muita gente me ajudou, outras não. Arrumei um estágio onde o salário dava pra pagar o aluguel e sobrava 50 reais. Passei seis meses almoçando dois pedaços de pizza, e sustentando o restante com biscoito de água e sal, e não recusava nunca os lanches que me pagavam. Mas sempre falei que tava bem. Mais uma vez tive que tomar decisões. 

Disso nem minha mãe sabe. 

Eu me formei e trouxe na mochila um monte de amigo que desistiu lá trás, um monte de amigo que morreu lá trás, um monte de amigo que teve dificuldade igual ou superior, e tá lá trás. É por eles, é pelos mais antigos, pelos mais velhos, que lá trás estavam sangrando em busca do básico. Hoje ainda sangramos, e hoje ainda continuamos na luta. 

[Eu tenho diploma, será que agora quando eu falar que a mídia é racista, que a mídia estereotipa, que a mídia se apropria, eles vão continuar dizendo que é mimimi? Afinal, sou estudado agora né, tenho diploma]

O primeiro filho, o primeiro da família. O que abriu as portas pra que não seja o único. 

É mais um preto formado? Claro que não, é mais um preto chateando o sistema, contrariando estatística. É menos um preto, que o sistema engoliu. 

Liberdade, Rafa Braga. 
Eu sou porque nós somos.

O filho da manicure venceu.

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