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Ocupação sem-teto inaugura rádio comunitária na periferia de São Paulo

Rádio Libertadora Povo Sem Medo é uma homenagem a Carlos Marighella; área tem 1500 famílias
 
 
Por Laio Rocha -Mídia Ninja

Às 10 horas da manhã a carne já começava a assar na ocupação Povo Sem Medo do Capão, do MTST, no bairro do Capão Redondo, periferia da cidade de São Paulo. A fumaça que tomava o topo do morro em que o acampamento aportou há cinco meses, era sinal de festa. O povo entendeu e logo os barracos estavam lotados.

O motivo da comemoração foi a abertura de três novos empreendimentos da ocupação: uma rádio, um salão de beleza e um bazar. Os barracões inaugurados ficam localizados na entrada do morro. Esses são os maiores do acampamento e tiveram uma força tarefa especial para a sua construção, que aconteceu em cerca de uma semana cada um.

A ocupação, que é a mais recente do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto na capital de São Paulo, contém 1500 famílias, de acordo com os números da coordenação.

"Atenção, muita atenção!"

As caixas de som espalhadas em postes pelas esquinas das vielas estreitas de terra batida e seca soavam sob o repertório de reggae, rap e sertanejo se alternando com informes do Movimento, entrevistas e outras informações da região.

A rádio é comandada por Nildo, radialista responsável pela programação e pelas atrações musicais da rádio. O nome Rádio Libertadora Povo Sem Medo é uma homenagem a Carlos Rádio Libertadora Povo Sem Medo é uma homenagem a Carlos Marighella, que em 1969 controlou a Rádio Nacional, filiada da Rede Globo, e transmitiu um manifesto contra a ditadura militar.

Nildo, que está há mais de 20 anos na luta pela comunicação comunitária, trabalhou em rádios e jornais regionais e é responsável, junto ao coordenador da ocupação Liomar, pela concepção do projeto do “informativo sonoro”, como conceituou a iniciativa. A estrutura do barracão foi construída em três dias por quatro homens. O grupo utilizou palites para fortalecer a base, isolou acusticamente a ilha de gravação com caixas de ovos nas laterais e criaram uma janela de vidro para que o público possa acompanhar as transmissões.

“A princípio, vamos instalar caixas de som para transmissões nas nove cozinhas da ocupação porque são os locais em que o povo geralmente se reúne. A ideia é principalmente levar para as pessoas da comunidade notícias que não chegam normalmente através da mídia tradicional”, afirmou o locutor da rádio Libertadora.

Um dos exemplos de informações invisibilizadas pela mídia, segundo Nildo, foi a ocupação da Av. Paulista, quando o Movimento permaneceu acampado durante 22 dias dias sem que a imprensa desse repercussão. O levante, que reivindicava a retomada na construção de casas populares do Programa Minha Casa Minha Vida, conseguiu emplacar uma negociação com o governo, que deve rever os números das contratações de moradias.

Enquanto contava sobre as dificuldade de trabalhar em rádios comunitárias, Nildo, um rastafari de 50 anos, há 30 na luta por moradia, foi surpreendido pelo técnico em informática Celso de Jesus. “Pronto, tá funcionando a internet”. Respondeu sem pestanejar, “então vou te dar uma notícia: vai ter web rádio também”.

“Procura o Wi-Fi aí”, ordenou olhando para o celular que estava na minha mão. “Vou te falar como a gente ligou a internet aqui”, me disse Celso após me cutucar exigindo que eu conversasse com ele sobre o trabalho que fez para que a ocupação Povo Sem Medo do Capão Redondo se tornasse a primeira do MTST com wifi para os militantes.

Ele ocupou o terreno há cinco meses e passou a morar no acampamento. Com o tempo, percebeu que todos os processos realizados pela coordenação eram feitos com papéis, o que gera custo e muitos problemas. Enxergou nisso uma oportunidade de digitalizar os processos e, para fazê-lo, planejou a instalação da internet. Com isso, eles podem trabalhar as informações na nuvem e otimizar os controles internos: “O próximo passo será a instalação de um sistema de câmeras de segurança”, antecipou Celso.

O trabalho na comunidade

O maior dos três barracos está ocupado por araras, mesas com pilhas de roupas, bolsas, sapatos, um cantinho de roupas sociais e outra de blusas de lã. As roupas são fruto de doações para as pessoas da ocupação. As primeiras peças foram entregues para as pessoas mais necessitadas do acampamento, desempregadas ou de baixa renda, impossibilitados de comprar roupas novas.

As demais, expostas no bazar, são vendidas por valores muito abaixo do convencional. Eu, por exemplo, comprei uma blusa de moletom para me proteger do frio. O seu defeito solitário estava na ponta do zíper, que sumiu. “Hmm, está sem zíper? Então é 1 real”, anunciou a vendedora Cleide Carvalho.

“Sucesso”, essa foi a primeira palavra que Cleide me disse quando perguntei sobre a inauguração do bazar. Para ser mais preciso, essa foi a reinauguração, pois o local ficou fechado provisoriamente enquanto suas “funcionárias” compunham o grupo que ocupou durante 22 dias a Av. Paulista.

“O valor que recebemos aqui vai para o coletivo. Compramos materiais básicos do cotidiano, como lonas, fios, postes e lonas”. Ela explica que a primeira etapa para a criação do bazar foi a mobilização dos acampados para as doações. A aderência foi maior que esperada e elas conseguiram centenas de roupas.

De acordo com a comerciante, cerca de 200 pessoas passaram por lá hoje. Ela se entusiasma com o valor que entra para ajudar a família com as despesas domésticas. “Muitas mulheres aqui na ocupação estão desempregadas, e essa é uma forma de dar condições para que elas tenham a oportunidade de gerar renda”, afirma Cleide.

A vendedora aponta que parte das famílias do bairro do Capão Redondo não receberam o uniforme escolar das escolas estaduais e, por isso, foram as que mais compraram. “Não dá para sustentar três ou quatro trocas de roupa semanal. O gasto é muito grande. Com o uniforme sai mais barato. Muitas mães desesperadas vieram atrás de roupas baratas para seus filhos usarem na escola”.

Baiana da cidade de Ilhéus, Cleide participa de movimentos sociais por terra e moradia há 13 anos, a maioria na sua cidade natal, onde integrou as fileiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “A diferença é que lá a gente luta por terra, aqui é por casa”, diz. No acampamento Povo Sem Medo há cinco meses, cuida da organização do bazar e das escalas das funcionárias.

Esse é o mesmo papel do Carlos no salão de beleza. Mais conhecido como Japa, ele desenhou a concepção do barracão do salão, com espaço para que dois profissionais possam fazer corte de cabelo, e outros três façam manicure e pedicure.

Os valores são destinados exclusivamente para eles para que possam gerar renda para as famílias. No entanto, o custo dos serviços são metade do cobrado no mercado. “Aqui a ideia é ajudar os trabalhadores e a comunidade. O custo de um corte na região é de R$ 20, aqui cobramos R$ 10, para que tanto as pessoas possam ter acesso, quanto os funcionários uma renda”, explica.

Os empregos gerados a partir dos negócios devem melhorar a qualidade de vida dos acampados, ampliando os recursos e consequentemente o acesso das pessoas em um ambiente de desemprego intenso entre os militantes. “Estamos criando essas iniciativas para ter auto-sustentação”, conta Japa.

A evolução do acampamento

A ocupação Povo Sem Medo está produzindo uma série de atividades a partir da experiências e especialização dos acampados. O Japa, por exemplo, que está tocando o salão de beleza, promete que em breve deve iniciar a primeira equipe de jiu-jitsu com os jovens.

Outras movimentações que estão acontecendo são as oficinas de capoeira, zumba, ginástica para idosos e a prospecção de artistas para gravarem no estúdio montado dentro da rádio Libertadora. “Esse é só um pontapé inicial para um novo modelo de ocupação”, afirmou o coordenador Liomar, responsável pela criação do projeto da Rádio Libertadora.

https://www.brasildefato.com.br/2017/03/28/ocupacao-sem-teto-inaugura-radio-comunitaria-na-periferia-de-sao-paulo/






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