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Como a morte de um jovem inocente pelo Exército está sendo celebrada no ES

Por Joaquim de Carvalho

O jovem Matheus Martins da Silva, de 17 anos, não tinha passagem pela polícia, não portava arma e estava perto de casa, num bairro pobre da região metropolitana de Vitória, quando levou um tiro de fuzil na cabeça, disparado por um dos militares que patrulhavam a área, e morreu.

Segundo a família, diante da reação dos parentes e das evidências de que Matheus não era um bandido, os militares entraram no carro e abandonaram o local, sem fazer o registro da ocorrência.

Tudo indica que Matheus foi a primeira vítima da presença do Exército nas ruas do Espírito Santo e que se trata de uma tragédia anunciada — sempre que se cogita chamar o Exército para fazer o trabalho da polícia, alguma voz sensata adverte que militares não são treinados para a segurança pública e que existe um alto risco de ações desastradas como parece ter sido o caso em que jovem Matheus perdeu a vida.

Na página que o jornal A Gazeta, o maior do Espírito Santo, mantém no Facebook, a notícia da morte de Matheus foi uma das que mais repercutiram, com muitos comentários. Mas a maioria dos leitores se manifestou contra a publicação, porque, não opinião deles, o jornal não deveria publicar a notícia para não prejudicar a imagem do Exército.

“A Gazeta não tem vergonha não? Vai começar a denegrir (sic) a imagem do Exército agora?” escreveu uma leitora, que recebeu mensagens de apoio de dezenas pessoas — muitos ameaçavam descurtir a página.

Um número expressivo culpou o adolescente por ter levado o tiro. “O que essa pessoa estava fazendo na rua essa hora da madrugada? Boa coisa não é…”, registrou um internauta.

Era 1 hora quando Matheus foi assassinado, e uma prima disse que ele estava na casa da tia, ali perto, e a família o chamou para voltar para casa. No meio do caminho, encontrou a bala do fuzil do Exército.

“Começou a mídia imunda e os direitos humanos imbecil (sic). Em uma guerra morre (sic) muitos inocentes” destacou outro leitor.

Uma mulher questionou por que o Exército matou só um. “Para quem é treinado para matar, acho que fez pouco. Enquanto vários bandidos mataram vários porque a Gazeta não posta isso agora quer sujar o nome do Exército? Eles estão nas ruas. Para isso por ordem e matar vagabundo”, escreveu ela, que já frequentou a faculdade de Direito, mas não demonstra com o idioma a mesma preocupação que tem com a imagem do Exército.

Nada assegura que jovens pobres da periferia como Matheus estariam mais seguros se, no caminho de casa, encontrassem homens com uniforme da PM em vez de soldados com a farda verde oliva. Por serem tratados como suspeitos até prova em contrário, correm o risco de morrer em qualquer circunstância. Em certos lugares do Brasil, a crise de segurança é permanente.

No episódio trágico de Cariacica, o que chama a atenção é a imagem que se está criando do papel do Exército na sociedade. Os militares surgem como salvadores da pátria, o nosso último refúgio.

Não é para menos. No Jornal Nacional de sábado, a notícia da morte de Matheus foi ignorada, mas foram dedicados longos minutos para mostrar a força do Exército.

Pelas reportagens, vimos que está bem aparelhado – o repórter até pegou uma carona num sobrevoo de helicóptero para mostrar que os soldados têm câmera para fazer a vigilância do alto.

Também foram muitas as cenas de soldados nos ônibus, “garantindo a segurança da população”.

O sargento se dirigindo aos passageiros para explicar o que fazia ali – “Boa tarde, sou sargento do Exército brasileiro…” –não passaria no teste para uma novela, faltou convicção, era muito óbvio que havia decorado o texto. Parecia mais uma peça de propaganda institucional.

O tom da cobertura foi esse: contra o caos, o Exército.

Na realidade que o jornalismo da Globo tentou mostrar, faltou contar que os salvadores da pátria podem ter Esquilo moderno para ver tudo do alto – e até câmera! –, mas não perderam um velho cacoete: fazer relatos que são difíceis de aceitar.

Depois de abandonar o cadáver de Matheus e a família no bairro de Cariacica, divulgou uma nota, em que explicou assim a morte do adolescente:

A patrulha enviada ao local entrou em confronto, resultando numa troca de tiros entre os criminosos armados e a patrulha da Força-Tarefa, que reagiu em defesa própria. Durante a troca de tiros, foi constatado que um dos transgressores foi atingido e veio a óbito.

Parece que não foi bem isso que aconteceu. Mas o que importa? O Jornal Nacional não noticiou mesmo…

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