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Luana: mãe, negra, pobre e lésbica. Covardemente assassinada por três PMs

A história de Luana: mãe, negra, pobre e lésbica. Morreu após ser covardemente espancada por três PMs na frente do filho. Antes de morrer (passou 5 dias na UTI), ela ainda teve forças para contar o que aconteceu e seu depoimento foi gravado por familiares. Douglas Luiz de Paula, Fábio Donizeti Pultz e André Donizeti Camilo são os nomes dos policiais acusados

Luana Barbosa dos Reis saiu de casa no dia 09 abril de 2016 para levar o filho de 14 anos a um curso de informática, quando foi abordada por três policiais militares, e brutalmente espancada na frente do garoto.

Foi levada para o 1° Distrito Policial de Ribeirão Preto, onde foi registrado um termo circunstanciado. Quando liberada, familiares registraram em vídeo a situação de Luana, suja, cheia de hematomas, com a fala enrolada e quase inconsciente.

Internada na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, veio a falecer no dia 13, sofrera uma isquemia cerebral aguda causada por politraumatismo crânio-encefálico. A família doou seus órgãos.

Em entrevista ao Portal G1 o tenente coronel da PM, Francisco Mango Neto afirmou que Luana se mostrou exaltada, e que o uso da força foi necessário para contê-la. Oras, que perigo representa uma mulher desarmada diante de policiais treinados e armados pelo Estado? Testemunhas que temem se identificar afirmam ter visto Luana levar muitos golpes de cassetete e capacete.

A seguir, leia a reportagem de Alê Alves e André Caramante sobre o covarde assassinato de Luana publicada na Ponte Jornalismo:

“Corre que eles vão matar a Luana”. Foi pelo aviso de uma vizinha que familiares de Luana Barbosa dos Reis Santos, 34 anos, começaram a entender o porquê dos gritos e tiros que tomaram a vizinhança, na noite de 08 de abril.

Ao parar para cumprimentar um amigo que estava no bar na esquina da rua de sua casa, no bairro Jardim Paiva II, na periferia de Ribeirão Preto, Luana foi abordada e espancada por policiais militares e morreu cinco dias depois, em decorrência de uma isquemia cerebral causada por traumatismo crânio encefálico.

Os PMs Douglas Luiz de Paula, Fábio Donizeti Pultz e André Donizeti Camilo, do 51 Batalhão da corporação, são investigados sob suspeita do espancamento que causou a morte Luana.

Procurado desde o dia 19 de abril para se manifestar sobre a morte de Luana, o comandante-geral da PM, coronel Ricardo Gambaroni, ficou em silêncio. O mesmo aconteceu com o Setor de Comunicação da PM.

A reportagem também solicitou entrevista com os três PMs investigados por causar a morte de Luana, mas a PM não atendeu o pedido.

Segundo a irmã Roseli, Luana saiu de casa para levar o filho a um curso de informática, no centro da cidade. “Foi questão de dez minutos para começarem os gritos e os tiros. Ao abrirmos o portão, já estava uma cena de guerra, com policial apontando arma, vizinhos correndo e minha irmã gritando pedindo ajuda”, relata.

Ao se aproximar do bar com outros familiares, Roseli diz ter visto a irmã ajoelhada, com as mãos para trás, com uma bermuda preta, sem camisa e só com um top. Segundo ela, havia dois policiais imobilizando Luana, um deles com sangue no lábio – o mesmo policial que apontou uma arma para Roseli e sua mãe dizendo “entra [para a sua casa], se não morre”.
Abordagem

Em um vídeo gravado por familiares após as agressões, Luana diz que policiais a mandaram abaixar a cabeça e colocar as mãos para trás: “Aí eu comecei a apanhar, já me deram um soco e um chute”. Roseli diz à irmã que ela foi acusada de agredir um policial e fala ter visto um policial com a boca machucada. “Por causa que eles me algemou, me deram um soco e um chute”, responde Luana.

No vídeo, ela ainda diz: “Falou que ia me matar e matar todo mundo da minha família. Eu vomitei até sangue. Falou que vão matar todo mundo. Não é só eu não, vão matar até meu filho. Meu filho está morto, eles falou”.

Testemunhas relataram aos familiares que policiais chutaram Luana para fazê-la abrir as pernas, o que a fez cair no chão. Ao se levantar, Luana deu um soco em um dos policiais e chutou o pé de outro. A partir de então, os policiais começaram a bater em Luana com cassetetes e com o capacete que ela usava ao dirigir a moto.

“Alguns vizinhos dizem que estão tomando remédio para conseguir dormir, lembrando dos gritos da Luana pedindo socorro. Ela apanhou muito”, conta Roseli.

Um familiar relatou que Luana tinha muitos hematomas na região abaixo do umbigo. “Pessoas que estavam no bar contaram que ela levou muitos golpes de capacete no abdômen e de cassetete também”, relata o parente, que chegou ao local quando Luana já estava dentro do carro da Polícia Militar.
Na casa dos familiares

Roseli diz que, após ameaçarem ela e sua mãe, policiais entraram em sua casa, alguns deles escoltando o filho de Luana. Perguntaram se ela morava ali, se ela usava ou traficava drogas, se ela roubava, no que ela trabalhava e revistaram o quarto dela e objetos de outros familiares.

“Os policiais não falaram porque abordaram ela e saíram de casa sem falar o que estavam procurando. Perguntei o que tinha acontecido, falaram que ela tinha agredido um policial e que estavam fazendo um procedimento normal no bairro”, conta Roseli. Em seguida, os policiais se dirigiram para a casa da companheira de Luana e repetiram perguntas e revistas.

Familiares disseram que não conseguiram se aproximar de Luana, pois a área foi isolada por carros da Polícia Militar. “Os policiais deram tiros pro alto e ameaçaram vizinhos que tentaram se aproximar e entrar na casa da mãe”, relata uma parente de Luana.

Segundo testemunhas, o filho de Luana, de 14 anos, presenciou tudo, escoltado por policiais. “Já tentamos de todos os jeitos, mas ele não conversa com a gente. Acho que está em estado de choque”, relata outro familiar, que também não quis se identificar.
Assinatura com os olhos fechados

Perguntados sobre Luana e a moto, policiais disseram que ela e o veículo, com documentos em ordem e apenas um pequeno problema no lacre da placa, havia sido levado para o 1º Distrito Policial. Na delegacia, somente um familiar teve a entrada autorizada. Ele diz que Luana estava algemada, “só de top e cueca preta”. “Coloquei uma camiseta nela. Ela estava meio deitada em um sofá, com olhos fechados, inchaço na cabeça e vomitando algumas coisas brancas”, relata o familiar.

Ele diz ter conversado com ela por poucos minutos, sendo solicitada a sua retirada da delegacia em seguida. Cerca de uma hora depois, ele entrou novamente: “Me chamaram para fazer ela assinar o termo circunstanciado e o Boletim de Ocorrência, que eles registraram por lesão corporal e desacato à autoridade”.

No Termo Circunstanciado do caso, assinado pela delegada da Polícia Civil de SP Patrícia de Mariani Buldo, a versão de Luana para a acusação de que ela teria agredido um dos PMs é resumida em 23 palavras, em duas linhas: “A declarante nega os fatos. Diz não ter agredido os policiais militares e nega ter ofendido-os no exercício de suas funções. Nada mais”.

Depois de ler os documentos, o familiar ajudou Luana a assiná-los. “Joguei ela no meu ombro e fiz ela assinar o B.O. Ela não estava enxergando, fui tentando guiar ela para assinar. Eles falaram que se não assinasse, a gente não ia sair dali”, relata.

“A letra da minha irmã parece a de uma criança, não tem nada a ver com a assinatura dela. Ela não conseguia ficar em pé, parecia o corpo de alguém que não tinha ossos”, afirma Roseli, que viu o documento posteriormente.

Ela conta que foi então foi chamada por um integrante da Polícia Civil, que lhe recomendou levar Luana para fazer um exame de corpo de delito, pois ela tinha sinais de espancamento. Como o IML (Instituto Medico Legal) já estava fechado àquela hora, recomendaram que voltassem apenas na segunda-feira.

“Perguntei o que ela tinha feito, falaram que ela tinha agredido um policial e que eles tinham acalmado ela, porque se quisessem quebrar ela, só um policial tinha dado conta”, relata Roseli.

Ao sair da delegacia, os familiares registraram o video em que Luana relata ter sido ameaçada. “Ela estava desfigurada, quase inconsciente quando saiu. Suja, só de meia pé, sem sapato. Ela não conseguia abrir os olhos, estava com a fala enrolada”, relata Roseli.

No vídeo, Luana pede para ir para casa tomar um banho. Familiares dizem que, por medo de represálias, decidiram atender o pedido e não registraram um BO naquele momento. Luana foi internada no hospital somente no dia seguinte, depois de apresentar febre e reclamar de dores.
No hospital

Ao dar entrada no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Luana já estava com suspeita de AVC (Acidente Vascular Cerebral), relata Roseli: “Fizeram exames para confirmar as suspeitas, mas falaram que era um caso grave e que não sabiam se as sequelas eram reversíveis’’.

Da equipe médica, Roseli ouviu que os exames mostraram um coágulo e rompimento de veias na cabeça de Luana.

O exame de corpo de delito foi realizado somente na terça-feira (12/04) pela manhã. “Quando o hospital pediu o exame de corpo de delito para o IML, perguntaram se a paciente era a agressora dos policiais”, conta Roseli. Após cinco dias de internação, Luana morreu por traumatismo crânio encefálico e isquemia cerebral. Ela teve os órgãos doados pela família.

A versão dos policiais e suas contestações
Segundo o termo circunstanciado registrado pela delegada Patrícia de Mariani Buldo, os policiais militares realizavam uma patrulha no bairro e, ao avistarem a moto de Luana próxima a um bar, “resolveram parar e abordar os dois”.

O “garupa” (filho de Luana) saiu “correndo, a pé” ao ver a viatura se aproximar e os policiais então abordaram a “autora dos fatos”. “Uma vizinha que estava la falou que é mentira, que o filho dela não correu, os policiais ficaram junto dele, do lado da moto. O filho só saiu do lugar quando eles foram revistar a casa da mãe dela”, contrapõe um familiar.

O documento diz que, ao ser abordada, Luana “começou a tirar a roupa, tirou o capacete e desacatou policiais”. Um dos policiais “pediu para a autora se acalmar e colocar a roupa” e Luana então “desferiu um soco na boca do mesmo” e “desferiu um chute no pé” de outro policial, “onde também restou lesão e inchaço”.

Segundo familiares, os policiais teriam chegado gritando para Luana botar as mãos na cabeça, abrir as pernas e mostrar documento. Ela teria pedido uma policial mulher para revistá-la, o que não foi feito.

“Mesmo falando que ela era mulher, eles continuaram a abordagem e quiseram revistá-la. Depois de agredida, falaram que ela ainda levantou a camiseta para mostrar que era mulher”, conta Roseli, em alusão à aparência “masculinizada” da irmã.

Para a família de Luana, ela também pode ter sido espancada pelos PMs porque tinha um registro policial anterior, quando foi acusada de porte de arma e roubo. Luana deixou a prisão em 2009 e, segundo Roseli, ela continuou estudando e trabalhava como faxineira, garçonete e vendedora.

“Ela não pode refazer a vida? Ela não tem mais direitos e nem é ser humano por ter passagem? Não tinha nenhuma acusação contra ela. Por ser lésbica, negra e da periferia, com passagem pela polícia, ela já era considerada culpada”, contesta Roseli.

Em sessão ordinária na Câmara dos Vereadores de Ribeirão Preto, no dia 19 de Abril, Roseli falou sobre a morte da irmã: “Estão tentando usar o fato dela já ter tido passagem para convencer a opinião publica de que foi merecido. Que bandido bom é bandido morto”.

“Por que não levaram ela presa pelo desacato? Por que fizeram tudo isso com ela? Ela já estava rendida, não tinha necessidade disso”, questiona outro familiar.
Lesbofobia e racismo

“A Luana já tinha passado por preconceito antes, em uma festa com a namorada. Ela ja tinha levantado a blusa uma vez pra mostrar que era mulher e não apanhar dos caras”, afirma Roseli.

Para ela, Luana foi vítima de lesbofobia. “Talvez aquela abordagem teria sido outra se ela se vestisse de maneira diferente e tivesse outra aparência. Ela dizia que não aguentava mais ser parada nas ruas daqui”.

Para Roseli, o primeiro preconceito que se mostrou se refere à identidade sexual da irmã.

“Ela pagou o preço por parecer um homem negro e pobre, ela foi abordada como outros homens da periferia são. Lésbica, negra e periférica com passagem pela polícia, ela já era considerada culpada”, afirmou a irmã.
A morte do pai

O corpo do pai de Luana e de Roseli foi encontrado pela família em 2013, no cemitério de Perus, zona oeste de São Paulo, quando as duas passaram a procurá-lo. Ele foi morto a tiros em 1981, aos 34 anos, na cidade de São Paulo, e foi enterrado como indigente.

“Nosso pai foi assassinado a tiros aos 34 anos, em São Paulo, sem que o culpado jamais tenha sido identificado. Ele foi primeiro enterrado como desconhecido e só depois teve o corpo identificado por uma das minhas tias. O círculo vicioso da violência que se repete com as minorias e o genocídio da juventude negra tem que acabar”, diz Roseli.

Familiares e ONGs realizaram um protesto contra a morte de Luana no sábado (23/04), em frente à Esplanada do Teatro Pedro II, em Ribeirão Preto.

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