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FIFA: o dia em que prometi nunca mais jogar online

POR ALEXANDRE COSSENZA

Meu nome é Alexandre Cossenza, tenho 38 anos e não jogo o modo “seasons” de FIFA há três anos. A história a seguir é inteiramente verdadeira e conta o momento exato em que precisei dar um basta. O vício me deixou antissocial, provocou uma briga feia com a esposa e prejudicou a saúde. Lutei contra por algum tempo, perdi algumas batalhas, mas finalmente consegui: parei de jogar FIFA online.

FIFA 12 foi um daqueles games que eu demorei a pegar de vez. O jogo foi lançado em setembro de 2011, mas eu tinha feito algumas viagens a trabalho e a passeio justamente naquele mês e, mesmo depois de comprar o jogo, havia outras prioridades em casa. O disco ficou na caixinha por um bom tempo, só saindo quando algum amigo fazia uma visita. Tudo era saudável. Foi só em 2012 que a situação ficou tensa.

Foi quando decidi começar a jogar online naquele modo “seasons”. Para quem não conhece, é um modo em que você joga dez vezes contra dez adversários diferentes. Todos, teoricamente, no mesmo nível que o seu. Nesses dez jogos, se você somar um número estipulado de pontos, sobe de divisão. Se não alcançar o número mínimo, é rebaixado. É mais difícil do que parece, acreditem.

Meu time era o Barcelona, aquele do tiki-taka. Realmente investi muito tempo naquele time. Desenvolvi meia dúzia de jogadas ensaiadas para escanteios e montei uma formação que chamava de 5-5-0. Na defesa, uma linha de quatro com Busquets um pouco à frente. No meio, Xavi um pouco atrás e uma linha de quatro posicionada quase em cima da linha central, com Iniesta, Fábregas, Villa e Messi. A ideia era tocar a bola e levar o time à frente com a linha subindo aos poucos. Funcionava. Os adversários não tinham paciência para o meu toque de bola e, assim que algum defensor saía de posição para tentar roubar a bola, eu aproveitava o buraco e jogava ali.

A partir da quinta divisão, a coisa começava a complicar de verdade. “Não tem mais bobo no FIFA”, eu dizia. E não tinha mesmo. A maioria dos jogos terminava num 1 a 0, fosse para o lado que fosse. Eu continuava ganhando a maioria dos jogos, mas subir de nível ficava cada vez mais duro. E nisso iam horas e horas de jogo. Os gols sofridos eram remoídos até o fim. “Não podia ter errado aquele passe!”, “por que fui inventar de sair com aquele zagueiro?” e coisas assim me torturavam até que a próxima viesse.

Jogar online tem outros problemas. Meu horário no trabalho oscilava. Às vezes, eu voltava da redação às 16h e chegava em casa antes da esposa. Eram algumas horas de FIFA com a casa vazia. Só FIFA e eu, mais ninguém. Até que tocava a campainha. E só quem joga online sabe o suplício que é ouvir sons como gente batendo na porta, celular vibrando e telefone tocando. Só quem tem a bola pode dar pausa. Sem a posse, é preciso brigar para desligar aquele liquidificador mental que te pede para concentrar no jogo e tocar WhatsApps com a esposa ao mesmo tempo.

Uma vez, um jornalista carioca super famoso que conheci em Nova York me ligou durante um jogo online. Ele nunca havia me ligado. Aliás, pensando agora, nem lembro de ter dado meu número para ele. Mas eu divago. Eu estava sem a bola, olhei para o celular com uma velocidade de dar inveja a Lewis Hamilton, vi o nome do figurão e raciocinei como Lionel Messi lendo uma jogada. Segurei o controle com uma das mãos, atendi o celular com a outra e disse com voz de locutor de turfe: “Oi[Fulano]teligoemcincominutospodeserabraço!” Voltei – mentalmente – para o jogo, ganhei e, cinco minutos depois, liguei de volta, pedindo desculpas pela pressa e, dessa vez, dando minha atenção completa à chamada.

Aquilo deveria ter sido um tipo de aviso, mas não foi. Como não foi uma briga com a esposa que rende risadas até hoje. Ela chegou, tocou a campainha e, como Murphy é um eterno canalha, eu não tinha a posse de bola. Fiquei no jogo. Um minuto depois, ela entra (sim, ela tem o hábito de tocar a campainha mesmo quando leva a chave de casa), já reclamando. Eu olho de soslaio. Um olho nela, o outro em Cristiano Ronaldo, que vinha fazendo a festa em cima de Abidal. Ela continua reclamando, eu não respondo. Ela insiste até que eu dou uma resposta atravessada. É aí que ela olha no placar e apela para o nível mais baixo que um ser humano pode chegar diante de um gamer: “Você está assim só porque está perdendo.”

Sim, eu estava perdendo. Mas usar isso como argumento na briga quebrava toda espécie de código não-escrito de respeito. Violava a Convenção de Genebra! Mentira, o pessoal em Genebra tinha coisas mais importantes a tratar, mas naquele dia, naquele momento de fúria, acharia justo até se o Conselho de Segurança da ONU autorizasse um ataque aéreo sobre a minha esposa. Uma linha havia sido ultrapassada. A coisa esquentou. Ficamos sem nos falar por umas duas horas, que pareceram a trilogia do Senhor dos Anéis para um casal que raramente briga e mora em um quarto-e-sala. Até que fui pedir desculpas. Dei um abraço, um beijo, admiti que estava nervoso e… Não resisti. Quando estava tudo bem, soltei: “e se f… porque eu virei o jogo!” Ela não aguentou, começou a rir, e a paz voltou.

Esse deveria ter sido o momento da virada. Eu pensei em largar tudo ali, juro, mas não consegui. Insisti com FIFA 12. Eu estava empolgado, desenvolvi um 3-4-3 que funcionava lindamente até contra defesas fortes e cheguei à segunda divisão. Só que eu precisava provar para mim que era possível chegar à primeira, onde estavam só 5% de todos gamers de FIFA no mundo todo. Eu precisava pertencer àquela elite. E o verbo que se repetia para mim naquela época como um comercial ruim da Nextel na TV a cabo é o mesmo que escrevo seguidamente neste texto: “precisar”. Todo viciado precisa.

E minha aventura na segunda divisão foi razoavelmente bem sucedida. Cheguei ao décimo (e último) jogo precisando de um empate. Minha defesa era forte e apostei nisso. Só que lá pelo meio do segundo tempo, errei um passe no meu campo e levei um gol. Em vez de cinco minutos para chegar à primeira divisão, precisaria de mais dez jogos. Lancei o time furiosamente ao ataque. Aos 89’, uma bola sobra quicando para David Villa na linha da pequena área. Não sei se o game calculou a tensão do momento ou se apertei o botão de chute um pentelhésimo de segundo a mais do que devia, mas a bola acertou o travessão e saiu. Perdi. Não subi. Eram 3h da manhã, desliguei o Playstation e fui deitar.

Eram menos de 3h15min quando a luz verde daquele console superaquecido acendeu novamente. Não consegui dormir. Eu precisava da primeira divisão. Eu precisava. E assim fomos o Playstation, o FIFA 12, uns litros de Coca-Cola e eu madrugada e manhã adentro. Lembrando hoje, é admirável como consegui controlar aquele nível de estresse e fazer outra ótima campanha na segunda divisão.

Eram 6h27min – impossível esquecer o momento, o relógio, o ponteiro dos segundos precisamente no 9 – quando finalmente me vi na primeira divisão. Tomei um banho, me vesti e tomei o caminho da redação. Meus olhos ardiam naquela mistura de sono e luz matinal. Parei o carro no posto de gasolina, comprei duas latas de Red Bull, um Toddynho, um pão de queijo e decidi: “Nunca mais.”

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