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Pela Extinção dos Combustíveis Fósseis!

Tem havido todo um debate em torno da divisão dos chamados "royalties" do petróleo, que tenho considerado superficial e enviesado. Lamento que a questão climática, absolutamente central para a humanidade neste século XXI sequer seja tangenciada. As "polêmicas", para mim, soam vazias de sentido, qualquer que seja a destinação final dos tais royalties (fiquem majoritariamente com os estados de origem do recurso fóssil ou sejam distribuídos equitativamente, sejam destinados por completo à educação ou para outros fins, os mais nobres que você possa imaginar...), o efeito final do uso das reservas fósseis é de um dano incomensurável. É certamente muito maior do que qualquer benefício de curto prazo que se possa aferir.

Em outros temas ambientais, a adoção do princípio de precaução e, sobretudo, a primazia do raciocínio de longo prazo, em detrimento da exasperação da busca de benefícios de curto prazo me parece bem melhor equacionada. É o caso, por exemplo, das florestas. Hoje em dia, em meio a formuladores de políticas, governantes de diversos matizes e na população em geral, é mais ou menos bem aceita a noção de que a devastação das florestas não pode ser admitida, por mais que fosse produzida e bem distribuída riqueza a partir de criação de gado, plantio de soja ou extração de madeira! Sabe-se que, em nome da preservação de serviços ambientais, da água, do clima local, da biodiversidade, enfim, numa perspectiva de sustentabilidade, é quase universal (com exceção dos ruralistas mais empedernidos) a compreensão de que as taxas de desmatamento devem declinar e que, pelo uma parcela significativa das florestas tem de ser mantida.
Infelizmente, não há o mesmo tipo de compreensão no que diz respeito ao uso do petróleo, carvão e demais combustíveis fósseis. Talvez porque os danos associados não seja locais, e sim globais, temos uma triste contradição: as consequências da queima desenfreada de combustíveis fósseis são mais profundas e de maior escala, mas menos perceptíveis por não se se darem de maneira localizada e concentrada. Exceto quando há um derramamento de petróleo com uma calamidade ambiental e todos vêem manchas de óleo nos mares, as pessoas tendem a naturalizar o uso dos combustíveis fósseis, sem se darem conta da catástrofe anunciada em cada ppm (parte por milhão) a mais de CO2 na atmosfera. Acreditem, a questão é para lá de séria e espero poder mostrar para vocês que a única escolha racional possível por parte da humanidade é manter a grande maioria das reservas fósseis exatamente onde estão: soterradas, intocadas, sacrossantos restos mortais das florestas do Carbonífero!

Existe um parâmetro bem conhecido na comunidade de clima que é a "sensibilidade climática". De maneira simplificada, é a variação na temperatura global que se deve esperar ao se duplicar a concentração de CO2 atmosférico. Segundo os levantamentos científicos do IPCC, a sensibilidade climática de equilíbrio, isto é, o ajuste da temperatura global a longo prazo está muito provavelmente entre 2 e 4,5°C, com valor mais provável de 3°C. Isto significa que um planeta com 560 ppm de CO2 (o dobro do valor pré-industrial) provavelmente tenderá a ser em torno de 3°C mais quente do que há um século (mas podendo ser "apenas" 2 ou até 4,5 graus mais quente). O limite geralmente aceito para evitar ruptura de diversos ecossistemas é de 2*C. A conclusão óbvia é a de que nem em sonho podemos pensar em deixar a atmosfera terrestre chegar a 560 ppm, muito menos ultrapassar. Na verdade, o limite realmente seguro segundo a ciência do clima (e isto é colocado de forma bem didática aqui) é 350 ppm, o que já foi ultrapassado em muito! A concentração média de CO2 na atmosfera, ao final de 2011, foi de 391.57 ppm!

Ciclo do Carbono para a década de 1990, segundo o 4° Relatório do IPCC.

Os estoques estão em GtC (bilhões de toneladas de carbono. Os fluxos, em

GtC por ano. Em vermelho, as alterações de natureza antrópica para a déca-

da de 1990 em comparação com o período pré-industrial.

Ora, as reservas fósseis, segundo estimativas do IPCC, eram de 3700 GtC (bilhões de toneladas de carbono), sendo que há estimativas de que elas podem, na verdade, serem maiores. Deste valor, foram extraídos 244 GtC, que somados a 39 GtC de saldo negativo de carbono terrestre (devido a mudança do uso do solo, isto é, principalmente desmatamento), nos dão emissões humanas acumuladas de 283 GtC. Destes, 165 GtC (58%) se acumularam na atmosfera (causando aquecimento global) e 118 GtC (42%) no oceano (levando à acidificação). O que aconteceria, portanto, se fossem queimadas todas as reservas fósseis? Ainda que fosse mantida a mesma proporção de 58% sendo jogado para a atmosfera, teríamos 2015 GtC a mais, totalizando 2777 GtC de carbono, ou, em termos de CO2, nada menos que 4,65 vezes a concentração pré-industrial. Ora, se a cada duplicação de CO2 o planeta é levado a um estado de equilíbrio 3 graus mais quente (entre 2 e 4,5), um fator de 4 já nos daria um mundo 6 graus mais quente (entre 4 e 9, considerando as incertezas). Isso seria absolutamente catastrófico para a civilização humana e para a maioria esmagadora da biota terrestre que se adaptou a um outro clima completamente distinto. Essas transformações ocorrem numa velocidade muito além do tempo geológico, impossibilitando uma adaptação adequada das espécies. Um planeta mais quente também seria caracterizado por eventos extremos (algo que posso detalhar em outro texto), incluindo secas e tempestades mais severas, por uma redistribuição dos padrões de chuva, por taxas de evaporação provavelmente muito maiores, comprometendo a segurança hídrica e alimentar. Configuraria, em relação ao clima atual, um verdadeiro caos climático. Econômica, social, ética e moralmente não há a menor possibilidade de os benefícios de curto prazo do uso de energia fóssil compensar!

Cada ppm de CO2 a mais na atmosfera é um deslocamento a mais na direção desse abismo, sendo cada barril de petróleo  queimado um pequeno passo! É por isso que fico profundamente preocupado ao ver que a discussão do petróleo brasileiro é feita de forma tão atravessada! Quem seria capaz de defender que toda a Amazônia fosse devastada para que "os recursos com a madeira fossem utilizada na educação"? E como se pode aplicar esse raciocínio para algo maior e mais grave - dado que é uma questão global - aos malditos royalties? Lembro, aliás, que royalties são apenas uma fração minoritária. Com a quebra do monopólio estatal, a maior parte das divisas iriam parar nos cofres não só da Petrobrás, mas da Exxon, Shell, Chevron, BP, Texaco, ConocoPhillips ou qualquer outra gigante petroquímica. Precisamos de mais verbas para a Educação, mas financiá-la com petróleo é ofertar a possibilidade de um futuro melhor a nossas crianças e jovens com uma mão e, ao mesmo tempo, comprometê-lo definitivamente com a outra! As verbas podem vir de outro lugar! Por exemplo, da fatia majoritária do orçamento, hoje destinada ao setor financeiro (quadro ao lado). Para mim, independente da possível boa vontade de quem tenha essa idéia, é um absurdo sem tamanho manchar a Educação dos nossos jovens de óleo! As últimas fronteiras dos combustíveis fósseis (o betume de Alberta, o pré-sal brasileiro, as reservas do Ártico) precisam ser respeitadas exatamente para que esses jovens e seus filhos e netos tenham direito a um futuro. Daí, ainda que não se possa interromper imediatamente a extração e uso dos combustíveis fósseis, as politicas públicas em todo o mundo têm de apontar para a sua extinção e isso urge!

Minha fotoPostado por Alexandre Costa

http://oquevocefariasesoubesse.blogspot.com.br/2012/11/pela-extincao-dos-combustiveis-fosseis.html

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